quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Ensaiozinho amador no verso da prova de biologia

Meu bem,

O tempo cristalizou nossas esperanças, e os planos se dissiparam como papel n'água. Tememos o futuro que se edificou , em tua cabeça, semelhante a um monstro, e te fez essa menina de olhar oblíquo, de um beijo, de um "uh!"...
Tua vida te desenhou cada vez mais sem vida, sem rota, e aceitaste tênue a infelicidade e o infortúnio que serão, ao teu contento, companheiros diletos e vitalícios.
Vai, Maria, dá um rodeio na praça, fitando as crianças, e passa Júlia, passa Sandra, Patrícia, Vitória, e você se esquiva: "não , hoje não, outra hora" ou "após a sesta amanhã", mas prossegues na solidão, aceitando os meandros da vida estática, fria e calada, com o mesmo olhar inclinado, os lábios cerrados, sem beijo, sem "uh!".

Lafayette Gadelha
João Pessoa, 13 de Outubro de 2008

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Para quem não gosta de ir ao dentista

Leiam. Muito interessante: http://www.plasticobolha.com/2008/04/02/odontologia-a-farsa/
Comemorei como gol do Palmeiras. Pode até ser uma calúnia ou um engodo qualquer de um polemista, mas que agrada, agrada...

Lafayette Gadelha
João Pessoa, 24 de Setembro de 2008

domingo, 14 de setembro de 2008

Seu Expedito

A gente chegava na Companhia e ele estava lá sentado com os amigos, inclusive a pagar todos os custos da mesa, tomando seu chopp na caneca fria e separada, exclusivamente, para ele. Sempre era hospitaleiro com todos os clientes, conosco principalmente, e como prova da sua polidez perene, é a sinuca no canto do bar, a qual foi uma petição nossa, freqüentadores fidedignos de lá.
Nem era tão próximo dele, mas o seu semblante era capaz de inebriar o homem mais frio da cidade e cativar os mais depressivos e acanhados indivíduos que ali fossem chorar suas mágoas de amor. Seu Expedito viajou para uma dimensão desconhecida. Agora, paira apenas o pranto dos garçons sobre os copos do bar, a voz cada vez mais tênue do cantor e a solidão de seus companheiros de boemia.
Subordinados aos vícios da noite, jamais cessaremos nossa freqüência rotineira àquela taberna, embora a sua singularidade tenha se esvaído tão abruptamente com a morte dele, de modo que assim o faremos como forma de homenagem, gratidão e devotamento.
Lafayette Gadelha
João Pessoa, 14 de Setembro de 2008.

domingo, 7 de setembro de 2008

É setembro e por isso não chove mais. O verão começa a tomar a cidade e é o vento que anuncia isso, livrando-se lentamente do cheiro da chuva que o envolve de maio a agosto.
E assim eu também vou me desprendendo desses ares de terra fria, da água que cai sem parar e me empurra tanto para dentro de mim mesma, como se as tempestades fossem de ferro e circundassem todo o espaço que há fora da minha alma e do meu corpo, obrigando-me a uma reclusão triste nas curtas e vagas extensões que possuo e que chamo de só minhas.
Os lugares, as horas, as brisas e o movimento das marés têm esse poder: fecham e abrem meu coraçao quando bem entendem, nao sou dona dele, viro escrava, umas vezes exangue, despedaçada, inerte; outras vezes histérica e eufórica, como se toda a falta de lucidez da natureza tomasse conta da maneira como não desbravo meus caminhos e não conduzo minha vida.
Eu sempre soube que estava acorrentada aos humores da natureza, desde que, depois de visitar Aracati e tornar-me tão íntima do seu espírito, dos seus movimentos e odores, senti, a tantos quilometros de distância, o cheiro de sua praia numa aragem que atravessa estados e traz para a aridez do sertão a delícia da maresia. Pensei que estava na praia, eu, naquele instante enterrada na depressão sertaneja que começa na serra da viraçao e torna toda aquela região tao mais longínqua e distante do que na verdade é. Meus pés já pisavam uma rede de pescador, sujos de areia molhada e de sargaço.
Setembro me transporta para outros setembros. E os setembros, que era tão felizes por expulsarem a chuva e trazerem de volta o calor e a luz, agora são impotentes diante da profundidade do meu claustro. Meus minutos, nesses últimos temporais, foram mais longos ,até mesmo que os longos minutos de inverno, e ,assim, fui me embrenhando no meu peito sem nenhum limite, tanto que agora acho que nem consigo ver o ponto de onde saí, o retorno parece imensamente demorado.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

"cada um de nós é um universo, pedro"

Pedro escutava o chorinho do violão e fitava o reflexo da lua sobre o mar, categoricamente lindo, ao passo que os seus pensamentos eram só melancolias e prantos intrínsecos, era como se ela começasse a se tornar um mito e o tempo dos dois se encerrava tão abruptamente que era quase incrível pensar e idealizar o semblante dela ou tentar, debalde, recordar algumas palavras que soavam da sua boca.
Bebia cerveja. Não era o seu costume, mas, naquela noite, particularmente, a escolheu como sua amiga dileta que iria compartilhar com ele suas dores, ao lado da voz do velhinho que tocava suas músicas prediletas, por isso os goles eram cada vez mais vagarosos, representando sua tentativa vã de eternizar aquele momento e ficar observando o luar por toda sua existência. A platéia era pequena. Além de Pedro, haviam mais três pessoas: um casal de namorados, que se reconciliavam de um litígio passageiro e um amigo do cantor, que resolveu comparecer, já que eram incessantes e diuturnos os convites do artista a toda sua turba de companheiros de boemia. O escasso público tornava o ambiente ainda mais triste, salvo o casal, o qual Pedro observava com uma pontinha de inveja, mas a lícita, que se representava como um desejo incisivo de também ter seu amor de volta, todavia ela estava longe dele e, certamente, não estaria pensando nele, nem lastimando a separação, deveras infortunada.
O velhinho, semelhante a Pedro, não tinha nenhum pretexto ou causa que o fizesse congratular-se. O sentido da vida perdia o prumo, e o vácuo pairava perante seus fardos, sua mente. Aguardava a morte, serenamente, sem pressa alguma, contudo privado de qualquer alvoroço em viver ou ainda um otimismo subjetivo que o fizesse galgar planos e receber triunfos advindos de sei lá o que. A tristeza o consumia, uma tristeza sem esperança, uma nostalgia sem perspectiva e sem vontade.
O sono calejava os olhos de Pedro. Motivos? A insônia e a cerveja. Os demônios que circundavam-no, além do amor. Ah, o amor de Pedro. Tudo virara quimera nos últimos dias, pois já era quase impossível lembrar-se do seu mais demorado encontro com ela. Tudo se escondia na sua cabeça, todas as características dela: o recato, o garbo, o charme... Tudo se encravava num túmulo, onde no epitáfio estava escrito um verso de Byron.
Pedro não era um pedreiro, nem muito menos chegava para esperar o trem, porém o seu sofrimento pela separação, pelo seu adeus mais íntimo era do tamanho de um universo inteiro. A sua consolação era a dor extrínseca do velhinho.

Lafayette Gadelha
João Pessoa, 18 de Agosto de 2008