terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

O sertão é lugar de revolução

Ontem, fiz minha matrícula na UFCG Campus Sousa, no curso de Direito, de modo que a partir do dia 27 de Fevereiro realizo um sonho de morar em Sousa como universitário, cidadão sousense e ativista político. 
É exatamente sobre a matéria do debate político que precisamos refletir. Não há mais tantos espaços para as fofocas dos pré candidatos e as especulações e sondagens das uniões ou desuniões políticas. O alinhamento político precisa ser uma questão de ideologia e não de conveniência, de convergência nas plataformas e não nas benesses esperadas.
Morar em Sousa me dá a oportunidade de contribuir para a união da classe política da nossa cidade em torno da discussão e da luta maciça e integral de todos nós pelos grandes temas que a cidade precisa abordar e dos grandes projetos e sonhos que a cidade precisa realizar, até se tornar uma cidade com as potencialidades naturais devidamente utilizadas para a riqueza e prosperidade do nosso povo e, principalmente, um local mais feliz para os filhos dos que aqui estão.
Tenho a vontade de tornar esse debate ainda mais periférico e levá-lo a todas as comunidades e a setores importantes da sociedade, a fim democratizá-lo cada vez mais. As pessoas querem extrair resultados da política e não tão somente palavras, atenção, sorrisos e eloquência.
No entanto ainda é estranho e dúbio o sentimento de me mudar: estarei fisicamente separado durante boa parte do mês das pessoas que mais amo na minha vida, as minhas irmãs, algo que me deixa angustiado e com o coração apertado por saber que não deixarei mais Lilice na escola e, pasmem, não dividirei com Myriam a constante e árdua missão de pagar as contas. Isso me dá uma saudade precoce, antes que as coisas aconteçam e o tempo dê cumprimento aos fatos. Choro e não tenho vergonha disso.
Eu sei dos sacrifícios das missões e, sinceramente, das renúncias que fazemos pelos sonhos. Lutarei sempre pela união da classe política, a ponto de não me constranger com um aperto de mão a um adversário pelo bem de Sousa. E luto por mais ética, zelo com máquina administrativa e espírito público enraizado nos políticos, por isso também não me sentirei constrangido ao firmemente denunciar o mesmo adversário, para que o bem vença o mal, mesmo que isso seja um tanto clichê.
Termino de rima: gente, o sertão é lugar de revolução.



L.
João Pessoa, 14 de Fevereiro de 2012



domingo, 30 de outubro de 2011

Três

São 3h e a cidade é uma calmaria. Minha cabeça, ao contrário, é um caos só. Melancólico com suas variantes de caos ímpares, mas é, sim, uma desorganização total. Porque é muito estranho saber que uma rede é só uma rede e os tempos já são tão distantes, os bons momentos menos assíduos em sua chegada e o sorriso mais ligeiro em sua partida. Eu nem te conheço o bastante mais, para saber identificar voz, tato ou um mero conselho, contudo eu ainda paro e escrevo depois de meses penando por isso.
São quase 3h, na verdade. Eu escuto uma canção que nada diz, só que as notas são aprazíveis aos meus ouvidos, é um samba altamente gostoso, contudo fica no vácuo a semântica mais profunda, e, pra mim, isso é necessariamente o que interessa, pelo menos, neste tão constante momento, entre idas e vindas de ais e pousos de mais rugas. A peleja caleja, amigos... Dá pra se entender o dito paterno do quanto os suor é significante, é resultado e não mera transpiração orgânica.
Já se avizinha o nascer do sol, e eu insisto em não deitar. O sono pode até bater, mas a porta não se abre, porque já dizia eu mesmo, numa descoberta no carbureto, que dormir é ruim, bom é viver. Por isso, descansarei um pouco e acordarei já cedo. Ora, deve ter tapioca na mesa! A morte tanto é iminente como eminente angústia na vida das pessoas, não pelo fato, mas, como diz um amigo meu, pelo modus operandi, logo viver é estar distante da morte.
Isso foi muito bom: é um ponto de partida interessante para "uma ode ao mictório" e "ainda vou desmascarar o avião".
E vão por mim: cobertura de chocolate só é bom sobre sorvete de morango. O inverso não é verdadeiro.
São mais de 3h.


L.
João Pessoa, 31 de Outubro de 2011

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Tri


TRI 

Por José de Paiva Gadelha Neto 

Minha relação com o Flamengo sempre foi meio louca mesmo. Me lembro
bem, quando criança, todos da minha idade sonhavam em conhecer a
Disneyworld, se empolgavam ao falar do desejo de brincar na montanha
russa, conhecer o Mickey Mouse, sei lá o que. Eu só queria saber de
conhecer o Maracanã.

Meu pai, um rubro-negro apaixonado, achava isso o máximo e sempre me
apresentava aos amigos dizendo: “Esse é meu filho, Flamenguista, ano
que vem vou levá-lo para conhecer a Gávea e o Maracanã”. As passagens
de avião não eram baratas como hoje, e nós morávamos a quase 3 mil
quilômetros do Rio de Janeiro, além disso, meu pai temia a violência
também.

Com internet, TV por assinatura, Pay-Per-View, as informações são
abundantes e é possível ter notícias em tempo real e assistir todos os
jogos do mais querido, mas quem tem mais de trinta sabe da dificuldade
que era acompanhar notícias e jogos naquela época. Sabia apenas do
horário dos jogos, então, quando faltavam 15 minutos para o início dos
jogos, subia em cima do telhado da casa, acompanhado do meu velho
rádio. Passava aquelas 2 horas com o dedo no tuning do rádio, mexendo
para cima e para baixo, sem sucesso. Existia uma lenda que dizia que as
ondas da Rádio Globo caiam na cidade de Sousa, na Paraíba, onde eu
morava. Bom, chamo de lenda porque no período do jogo, eu escutava a
voz de José Carlos Araújo umas 3 vezes de 4 segundos cada, e claro, era
uma vibração: “Escutei, escutei”. Quando passavam as 2 horas, eu não
sabia patavinas do que tinha se passado no jogo, não tinha outra
alternativa a não ser telefonar para o Flamengo, saber o placar do jogo e
esperar o compacto na Bandeirantes. Também cansei de assistir esses
compactos e vibrar como se estivesse vendo o jogo ao vivo, afinal, não
tinha idéia do placar. Meu pai, claro, achava o máximo.

O tempo passou, fomos morar em João Pessoa em 1995. Agora já existia a
Globosat, e a Sportv já mostrava alguns jogos do Flamengo. Um cara, dono
de um trailerzinho lá no centro da cidade, passou a exibir os jogos e
aquela novidade tomou conta da cidade inteira, o negócio tomou uma
proporção tão grande que na final da Taça Guanabara de 1996, fora
necessário fechar a rua e instalar um telão, para os milhares de rubronegros
que lá foram ver o show de Romário, Sávio e Cia.

Não demorou para os bares da cidade notarem o que mais tarde viraria
um bordão entre os empresários: “jogo do Flamengo lota”. Meu pai
adorou a idéia. Agora poderia ver todos os jogos, acompanhado de um
whiskyzinho, no conforto de um bar e ao meu lado. Só não posso mais
dizer que ele achava o máximo, porque agora ele tinha que conter os
meus excessos oriundos do fanatismo que, por sinal, tinha sido inserido
em mim por ele.

E assim ficou a rotina: Jogo do Flamengo, cachaça e promessa de que no
próximo ano vamos ao Maraca. Meu sonho ainda não tinha se realizado.
Veio a série do tri e na festa do Bi-campeonato, lá na calçadinha de
Manaíra, local das festas do Mengão em João Pessoa, ele me disse: Ano
que vem a gente vai de todo jeito.

É... meu pai não chegou no “ano que vem”. Em novembro de 2000 ele foi
morar com papai do céu. Foi levar a alegria de ser rubro-negro aos céus,
pois a alegria foi o que regeu a vida de Doca Gadelha inteira e eu me
recuso a falar dele com tristeza.

Eu completaria 22 anos em março e só quem já passou por isso sabe o que
são os primeiros meses de uma perda dessa natureza. Foi então que o
Mengão cumpre sua rotina e se classifica para a final do Carioca de 2001 e
ao serem divulgadas as datas dos jogos, surgiu uma promoção, que hoje
pode parecer bobagem, mas na época não era uma coisa comum, ela
dizia: “ Passagem ida e volta, hotel, traslado e ingresso por apenas R$
900,00, parcelado em 6 vezes”. Eu não podia acreditar, tinha chegado a
hora, eu ia conhecer o Maracanã, o sonho que eu tinha desde os 5, 6 anos
de idade estava prestes a se realizar.

Imediatamente liguei para Guto, um amigo de infância tão louco pelo
Flamengo quanto eu, e quando dei notícia da promoção ele respondeu
perguntando: “qual o número da sua conta para eu depositar o
dinheiro?”. Saí correndo para a agência e fui o primeiro a comprar o
pacote. Fui o primeiro de sete pessoas. É, você leu certo, apenas sete
pessoas compraram o pacote, as sete pessoas que não suportaram a
ansiedade e procuraram a agência antes do primeiro jogo.

Os caras ganharam o primeiro jogo, tínhamos que ganhar por dois gols de
diferença e a viagem estava paga. O que fazer? Vou ao Maracanã pela
primeira vez pra perder? O Flamengo vai ser vice depois de dois títulos em
cima do maior rival?

Liguei para Guto e perguntei a ele se ele queria desistir. Confesso que nós
dois não acreditávamos muito, mas como já estava pago, a viagem não
poderia deixar de ocorrer.

Aproveitei que estava dentro do avião, portanto mais perto de Deus e fiz
uma promessa de passar seis meses sem tomar refrigerante se voltasse de
lá tri-campeão. Se estiveres perguntando porque não fiz pra passar esse
tempo sem cerveja, respondo dizendo que a promessa começaria a ser
cumprida logo após o jogo. Como eu iria comemorar? Sem cerveja? Sem
chance.

Chegando no Rio o grande grupo de sete pessoas foi fazer os passeios
tradicionais, Pão-de-açúcar, Corcovado, praias, e claro, a Gávea.
Amigo, hoje tenho uma filha e vejo a reação dela quando chega em um
parque de diversões, corre de um lado para o outro, quer andar em todos
os brinquedos de uma só vez. Eu estava igual. Queria estar na sala de
troféus, no campo de treino, no ginásio, na piscina e na Flaboutique ao
mesmo tempo. Claro que comprei a loja toda, né?

Era sábado, estava anoitecendo e ainda não tinha conseguido tirar
nenhuma foto com nenhum jogador e no local que eu estava aguardando
os jogadores saírem do vestiário só tinha um carrão que eu não tinha idéia
de quem era, foi então que aparecem dois jogadores, o dono do carro era
o melhor do time, o Pet e o carona era o pior, o Maurinho. Fiquei nervoso
na hora, quase derrubo a câmera, mas desnecessariamente, pois os dois
foram bastante solícitos e ao nos despedirmos, disse a ele que tinha vindo
da Paraíba só assistir ao jogo e queria aquele título. Ele respondeu com o
sotaque carregado que lhe é peculiar: “Famo vê”, traduzindo, “Vamos
ver”. Aquela noite eu não dormi, passei a noite virando na cama do hotel e
dizer que estava ansioso é pouco, eu estava beirando a loucura.

Chegou o dia, era época de apagão e o jogo começava ás 15h, chegamos
ao Maracanã ao meio-dia. Que coisa linda, aquela imensidão, que eu
achava que conhecia pela televisão, era mais lindo do que eu poderia
imaginar. Totalmente vazio, eu cheguei a duvidar que todos os espaços
pudessem ser ocupados três horas depois. Nossos ingressos eram para as
cadeiras brancas, que ficava em uma posição onde se via o jogo de frente.
Mas o dia era de perfeição, não podia faltar nada. Olhei de lado e Guto já
estava chorando, então lhe disse: “Vamos para a Raça!!!” O cara topou
sem pensar e lá fomos nós.

A Raça é a maior torcida organizada do Flamengo e ficava reunida atrás do
gol nas cadeiras verdes. Lá estávamos. Medo da violência? Meu amigo, a
emoção que se sente ali só pode ser comparada ao nascimento de um
filho. Você não pensa em outra coisa. É o tipo da coisa que o cara não tem
o direito de morrer antes de sentir.

Começa o jogo e a tensão que sentia naquele instante é algo inexplicável,
me sentia meio que responsável em levar aquela taça para a Paraíba.
Termina o primeiro tempo, no placar 1x1. No intervalo o clima na
magnética era de velório, galera cabisbaixa, triste. O time volta a campo e
com ele volta também o fervor da nação. Comparo aquela reação com a
de uma mãe que está triste por alguma coisa, mas quando vê um filho se
refaz para não deixar o filho preocupado e/ou entristecido.
Edilson marca um gol de cabeça e aí as esperanças ressurgem, posso até
confessar que de forma tímida, apesar de acreditar, já passava dos
quarenta minutos e naquele momento estava naquela de me autoconformar.

Pensava mais ou menos assim: “Vamos ganhar o jogo, não vou
sair daqui com o título, mas já ganhei dois deles, tá bom”. Mas como já
disse, amigo, aquele era dia de perfeição. Edílson sofre uma falta e aquele
cara que eu tinha falado no dia anterior ajeita a bola para bater. Olho para
trás e pergunto a um cara que estava marcando o tempo em quanto
estava e ele responde, 42. Pensei: é agora! Estava quase atrás do gol e o
cara manda o chinelo... O curioso é o que ocorreu em uma fração de
segundo. Do local que eu estava não vi a bola entrar mas escutei a galera
gritar, e imediatamente, vi a bola cair dentro gol. Não sei se reparam, mas
aquela bola não balançou muito a rede.

Meu irmão, foi a maior incidência de loucos por metro quadrado que eu já
vi na minha vida, gente chorando, passando mal, desmaiando. Se você que
esta lendo isso não é Flamengo jamais vai entender esse sentimento,
quem é Flamengo sabe do que eu estou falando. Meu sonho estava
realizado de uma forma que nem eu sonhava, foi tudo perfeito, foi tudo
além. Independente de religião, fica difícil acreditar que meu pai não tem
nada haver com isso.

Hoje é dia 27/05/2011, ou seja, aniversário de dez anos do tri-campeonato
e da minha estréia no Maracanã (fui mais três vezes depois). Também faz
dez anos que meu pai nos deixou e os dois acontecimentos me dão a
sensação de terem acontecido ontem.

Meu pai me prometeu que estaria, DE QUALQUER FORMA, comigo em
2001 no Maracanã, tenho certeza que ele estava. Meu pai morreu sem
saber que resolvi seguir a sua profissão, tenho certeza que ele sabe.

JOSÉ DE PAIVA GADELHA NETO

terça-feira, 12 de abril de 2011

Virei palmeirense!


Quando mamãe ficou grávida de Lafa, meu pai, com medo que eu me acometesse de um ciúme brabo que é praga forte na família, comprou um filme de vídeo cassete e colocava todos os dias para eu ver e ouvir. Eu cantarolava feliz os versinhos de “temos um novo irmãozinho, papai e mamãe dão muito carinho, nada melhor podia ter acontecido”, e todos acharam que estava tudo muito resolvido.

Nada feito. Nove meses depois chegou o meu irmãozinho, gordo como uma bola, mais vesgo impossível, orelhas maiores do que sua cabeça. Não fosse tão gordo, daria a idéia de serem asas. Se tivessem escolhido o nome na hora, eu desconfiaria que a razão tinha sido o tamanho das orelhas do menino, iguaizinhas as de Vovô Lafayette. Achei tão feio, tão feio, que não compreendi o estardalhaço de toda aquela gente em cima do bebê. Mas mamãe estava feliz demais, e acharam injustiça dizer que ele era horrendo. Até vovó e Tio Dalton, habitualmente muito sinceros, viraram juntos várias latinhas de cerveja antes de proferirem o veredicto: ele não é desse mundo, Aline! Parece Pirrita.

Demorou um tempo até notarem que eu, até então a dona do pedaço, linda e loira como uma boneca de porcelana no auge do meu um ano e meio de idade, estava ali estatelada e esquecida, e me convidarem para acariciar a coisa. Já estava indignada. Afinal, papai nunca me deixava pra trás por nada no mundo. Dizia constantemente que eu era a mocinha mais bela do planeta, que, às vezes, virava os olhos de mim com medo de colocar olhado, de tão bonita que me achava. Ultrajada é que me dispus a chegar perto de Lafa. De mansinho, fui alisando a cabecinha dele e balbuciando “ó, meu irmãozinho, fofinho...” e, de repente, sem notar, já tinha arrancado um tufo dos ralos cabelos loiros do neném naquele falacioso gesto de carinho.

Sabia que estava encrencada. A confusão foi grande, ele berrava alto e eu corri o mais longe que pude pelos corredores do hospital. Papai me alcançou e perguntou se eu não lembrava da musiquinha. Eu não sabia dizer, mas achava mesmo era que nada pior podia ter acontecido. Mal sabia que o pior ainda estava por vir, quando voltamos pra Sousa (sabe lá porque cargas d’água Lafa foi nascer em Campina). Muitos tufos de cabelo arrancados e muito choro de Vovó por causa da minha maldade sem precedentes com aquela criatura ingênua, até eu perceber que não tinha jeito. Precisava me aliar.

Não importava se eu era bem mais bonita que ele, éramos igualmente tratados. Claro, eu continuei achando absurdo. Mas resolvi aproveitar o admirável mundo novo. E, lentamente, descobri que um vesguinho gordo com orelhas de abano viria a ser o meu melhor amigo, desde a mais tenra idade.

Ele se encantou comigo desde que se entendeu por gente. Logo quando aprendeu a emitir os primeiros sons, sem saber falar Myriam direito, saía gritando pela casa: Iáá, Iáá. E até hoje me chama de Iaiá. Acho que ele já sabe dizer Myriam, mas ainda chama Iaiá.

À tardinha, íamos à praça e eu brigava com quem o chamasse de zarolho, ainda que eu mesmo chamasse, dentro de casa, só entre nós dois. Ficava em casa com ele quando ele tinha que usar aquele tampão horrível em um olho só, que eu nunca entendi pra que servia. Brinquei de Jaspion, Power Rangers e Jiraya, e nem achava um tédio. Tivemos um vizinho meio psicopata que o obrigava a ficar horas no sol quente se ele errasse um passe de futebol. Quando eu descobri, o psicopata, que hoje é nosso amigo, levou uma surra da qual nunca vai se esquecer.

Meus amigos eram amigos dele e vice-versa. Viemos morar em João Pessoa. Tínhamos uma gangue enorme que explorava as casas de veraneio abandonadas durante o inverno em camboinha. Eu, Lu, Leo, Deló, Luquinhas, Bruninha e Lafa. À noite, mamãe e papai tomavam vinho na beira da praia enquanto nós dois esperávamos juntos as redes de pescadores aportarem na areia para pegarmos os peixinhos menores, ou ficávamos correndo com nossas cadelas. A dele, Duda, a minha, Lara.

Eu gostava de tudo nele. Tudo era divertido, ainda que estivéssemos apenas os dois. Eu achava graça e me aproveitava de quando ele não queria ir a um lugar (e eu também não), tirava toda a roupa e corria gritando pela casa: só vou se for nu! Ele ficava comigo quando eu adoecia, e não contava pra mamãe se eu fazia uma trela. Foi ele que escondeu meu primeiro beijo, com um primo, na frente da antiga casa de Lindolfo Pires, encostada numa árvore. Não contou a ninguém. Mas eu dedurei o primeiro seis que ele tirou em matemática. Foi ele que jogou trinta partidas de xadrez comigo, quando eu acabei o meu primeiro namoro e só me distraía com aquilo. Foi ele que me ensinou a usar vírgulas e melhorar as minhas redações, já que Zarinha agraciava as dele, quase sempre expostas na parede da recepção do cursinho, com um “Quase Perfeito”. Também foi ele que me ensinou física do primeiro ano, quando eu já estava no terceiro. Eu lhe ensinei a cantar o Hino Nacional, porque nós adorávamos cantar juntos e, quando ele largou a bateria e o rock, pelo violão e a igreja e virou um crente fanático, o Hino era a única música que podíamos cantar juntos - as outras eram mundanas. Nem a religião foi um entrave entre nós. Ele tentava me converter, e eu também tentava convertê-lo. Acabou que ele mesmo deixou aquele fanatismo exacerbado, depois de ler a Bíblia duas vezes, saliente-se, e até começou a considerar que eu pudesse ir para o céu, mesmo dizendo “caralho”, de vez em quando.

Eu atualizei-o dos novos palavrões e das novas velhas músicas, e viramos nós dois fãs de Beatles, Belchior, Bob Dylan, Novos Baianos. Temos um repertório imenso. Cultuamos a revolução e os comunistas. Hoje, nos decidimos pelo capitalismo humanista. Mas ainda temos blusas com a fotografia de Che com os dizeres: ele está morto, faça sua revolução. E ainda acreditamos na revolução, ao nosso modo. Juntos fizemos esse pacto, de fazer a revolução, meio que bêbados, num barzinho na Lapa, quando descobrimos juntos o Rio de Janeiro. E vamos fazer.

Até hoje, só houve um empecilho entre nós. Em 1995, o monstro verde chegou de súbito para abalar as estruturas de nossa linda amizade. Onze homens, todos vestidos de verde, em um gramado verde, com o nome Parmalat nas costas começaram a assombrar minhas quartas-feiras e meus domingos. Lafayette se apaixonou pela primeira vez. O nome dele era Palmeiras, e eu detestava tanto aquele time que voltei a arrancar os cabelos do meu irmão de novo. Beliscava-o no meio do jogo, desligava a televisão, e, como nada adiantou, tomei uma séria decisão: virei corinthiana.

Ele já não era mais tão menor que eu, então a tapa rolava solta. Também perdi cabelos, e um abajur de peninhas, que ele depenou, uma a uma, na final da libertadores de 2000. Eu liguei o som nas alturas com o hino do timão e pulei serelepe pela sala. Ele trancou-se no meu quarto, usou um batom de mamãe para escrever um gigantesco “gorda” no meu espelho e, feito isso, depenou o meu lindo abajurzinho cor de rosa.

Muitas brigas viriam. Papai, achando absurdo o meu comportamento, adotou o Palmeiras como seu primeiro time (antigamente, como não havia campeonato brasileiro, era possível ter um time em cada estado, de modo que meu pai era flamenguista no Rio e Palmeirense em São Paulo, mas, flamenguista, depois que veio o Brasileirão e similares). Lilice nasceu já palmeirense. Eu insistia no meu Corinthians, porque, até a chegada do Palmeiras, nada havia me separado tanto do meu irmão. Não fui tão esperta como quando ele nasceu: em vez de aliar-me, resolvi bater chapa. Bobinha. Passei domingos em crise nervosa ao ouvir os gritos de gol, abandonada no meu quarto, sem companhia. Não me veio a idéia de que poderia estar com ele, comendo uma pipoca e, anos mais tarde, tomando uma cervejinha, os dois vestidos de verde.

O tempo passou, o Palmeiras continua sendo o grande amor da vida de Lafa, depois de Keoma, claro, sua namorada, de quem também me fiz aliada, grande amiga e até incluí-a nos nossos planos revolucionários. Ela topou sem pestanejar. Hoje somos três. Aliás, quatro. Há o nosso fiel escudeiro Iarley Maia, também um sonhador. E, como bem disse John Lennon, espero que um dia mais gente se junte a nós. Lafa ainda é o meu melhor amigo, e ninguém no mundo me completa como ele. Completa, ama, agüenta. Ninguém me diverte como ele. E eu não admiro ninguém como admiro meu irmãozinho. Não porque ele deixou de ser vesgo (tá até voltando a ser, inclusive), emagreceu, não tem mais orelhas de abano e é um gato. Mas porque ele é companheiro, inteligente, engraçado, um excelente cantor, futuro grande jurista e, sobretudo, porque é muito, muito solidário. De um altruísmo inigualável. Dizem que puxou ao meu bisavô Tozinho, que chegou a dar de presente um cartório que tinha. Nem me atrevo a dizer que sou assim. Por isso, coloco Lafa em um pedestal.

Não foi depois que meus pais morreram que aprendemos a tomar conta um do outro. Foi sempre assim, já que, quando eu tinha 12 e ele 10, passamos a morar sozinhos em João Pessoa. Outro dia tive pneumonia. De novo, Lafa não saiu do meu lado, sabia direitinho a hora de dar o meu antibiótico e o xarope. Tomou uma xícara de sorvete da minha mão, enquanto eu tentava traçá-la escondido. Aí eu me dei conta de que um erro, mesmo que tenha sido cometido, ininterruptamente, por quase quinze anos, ainda pode ser consertado. Que o Palmeiras nunca poderia nos separar, nem antes, nem hoje. E já que ele saiu na frente escolhendo seu time do peito, não tenho motivos para pedir para que ele seja corinthiano. 

Faço, agora, o Palmeiras o time do meu coração. Escolho, de hoje em diante, domingos e quartas-feiras menos solitárias. Escolho um time que ganhou a libertadores (um tanto oportunista, este argumento, ok). Acho que nunca fui corinthiana de verdade. Quando o Palmeiras perdia e Lafa ainda era pequeno, chorava muito. No fundo, bem, bem no fundo mesmo, eu ficava triste porque ele estava triste.

Através desse texto deixo o comunicado. Virei a casaca. Tive que fazer uso de muita emoção,é verdade. Porque, mesmo sendo muito altruísta, Lafa nunca vai perder a oportunidade de, ao saber da novidade, dar uns petelecos na minha cabeça e dizer divertido: E aí, o verdão é ou não é o melhor? Dá-lhe porco, dá-lhe porco!


M. 




sábado, 12 de março de 2011

depoimento de Inaldo

Acabo de receber email de minha prima Fernanda, com um texto escrito pelo jurista Inaldo Rocha Leitão poucos dias após a morte de meu pai.
Fiquei realmente emocionado com o fiel depoimento de uma pessoa que conviveu politicamente com meu pai, ora como aliado, ora como adversário. Devo dizer: na maioria das vezes, foram adversários, mas sempre se admiraram, fato raro na política quente e acirrada da Paraíba, notadamente de Sousa.

Valeu, Inaldo!
Segue o belo texto abaixo:



Salomão, o dono da bola

Por Inaldo Leitão

Uma penca de jogadores de futebol aguardava a chegada de alguém para o inicio da pelada, que ocorreria na rua sem calcamento nas imediações da Casa Grande do clã Gadelha, em Sousa. Devia ser meados dos anos 60 – e eu estava lá. Eis que aparece um garoto paramentado (naquele tempo era rara a existência de terno de futebol) e com uma bola de couro novinha acomodada sob o braço direito. Com pose de dono do pedaço, o dito cujo se dirigiu ao centro do campo e escalou os jogadores dos dois times, incluindo o próprio, como titular absoluto, e reservando-se o direito de fazer o rodízio com os jogadores que sobraram. Esse garoto respondia pelo nome de Salomão e era o dono da bola – e do time, portanto. Melhor dizendo, dos dois times.

Uma banda da cidade esperava as ordens de um certo cidadão que escalaria o time de políticos que disputariam as eleições em Sousa, sejam as municipais ou estaduais. Reunião na Casa Grande, expectativa em todos os recantos da cidade. O Chefe sabia que jamais poderia fugir de uma regra: o time teria de ter um parente no principal lugar da chapa. De preferência um filho. Não diria necessariamente pelo parentesco, mas o fato é que eram muitos os vocacionados para a arte da política. Principalmente os rebentos que, além de inteligentes e com formação acadêmica, eram brilhantes oradores. Feita a escalação, não havia contestação. E o time seguia para o embate eleitoral à cata dos votos. Esse Chefe respondia pelo nome de José, o dono do palanque – e do time de políticos.

Salomão Benevides Gadelha, o garoto-jogador-dono do time de futebol, era o filho mais novo de José de Paiva Gadelha, o chefe-jogador da política. Cada um no seu papel e no seu tempo, pai e filho se confundiam em muita coisa. Inovadores, craques na polêmica, criativos, ousados, visionários, radicais nas posições, inteligentíssimos e outras coisas mais, a presença dos dois em qualquer ambiente fazia a diferença. Não havia como não notá-los. Quando José se foi, numa noite de novembro de 1981, ate seus adversários mais ferrenhos, como eu, sentiram sua falta. A política, especialmente a de Sousa, perdeu muito de sua alegria, de seu entusiasmo e até mesmo de suas palavras atrevidas. Quando Salomão partiu no dia 25 último, curiosamente também numa noite de novembro, o mesmo buraco negro foi produzido. Nem as lágrimas do mundo inteiro, muito menos as dos sousenses, seriam capazes de preencher o vazio deixado pela dupla.

Minha proximidade com Salomão ocorreu na Universidade Católica de Pernambuco, no Recife. Eu estava a caminho da conclusão do curso de Direito quando ele iniciou sua jornada. Coube-me a tarefa de trazê-lo no movimento estudantil, o que era proibido pela ditadura militar, à época sob o comando do general-presidente Ernesto Geisel. Expliquei-lhe que o movimento era arriscado, quase clandestino, o que o animou ainda mais. Apresentei-lhe Raul Jungman, que anos depois seria deputado federal e na ocasião comunista, e outras lideranças estudantis. Nossa luta era pela reabertura dos diretórios acadêmicos, afinal vitoriosa em 1977. Como eu estava impedido de disputar a presidência do DA de direito, por ser concluinte, indiquei Salomão, que foi eleito com expressiva votação.

Seu discurso era mais radical do que os militantes estudantis vinculados ao Partido Comunista Brasileiro. O discurso básico incluía a revogação do AI-5 e do Decreto-lei 477; anistia ampla, geral e irrestrita; restabelecimento das eleições diretas para todos os níveis; restauração das liberdades públicas; extinção da censura; convocação de uma Assembléia Nacional Constituinte; e o fim do regime militar. Com o ambiente político no país ainda turvo, todos tratavam desses temas de forma um tanto contida – menos Salomão que, com sua retumbante retórica, incendiava o auditório. O estudante rebelde se fez advogado e refez o caminho para Sousa, sucedendo o pai na Algodoeira Gadelha. A chegada do bicudo devastou os campos de algodão na região e inviabilizou essa atividade do final dos anos 80 até os dias atuais. A quebradeira foi geral. Nem a multinacional Sanbra segurou o tranco.

Sem a Usina, o hiperativo Salomão viveu seus momentos de instabilidade profissional. Passou um período como vogal da Justiça do Trabalho, depois ensaiou uns passos como advogado, ocupou espaço na FIEP do irmão Buega Gadelha, até se defrontar com aquilo que realmente fervia nas suas veias – a política. Já fora do prazo limite da convenção municipal para escolha dos candidatos na eleição de 2000, Marcondes Gadelha formou uma chapa dita provisória com o irmão Salomão candidato a prefeito, tendo Leonardo, seu filho, na vice. Puro sangue. O que parecia uma piada logo se transformou em coisa séria.

Salomão fez uma campanha, digamos, pirotécnica. Chegava ao palanque de moto-táxi e um arsenal de fogos ensurdecedor espocava nos céus de Sousa. Barulhento, incansável e esbanjando seu natural otimismo, aliou sua estratégia eleitoral ao capital político que a família Gadelha sempre teve e tem para, no final, também beneficiado pela divisão do marizismo, polarizar a disputa com João Estrela e jogar o candidato Lúcio Matos para a lanterna. Mesmo derrotado, Salomão foi buscar na Justiça o que não conseguiu nas urnas. Dois anos de litígio depois, empunhou o diploma de prefeito, deferido pelo Tribunal Superior Eleitoral, e pavimentou o caminho para a conquista do segundo mandato na eleição de 2004. Fez história. Depois das tentativas de Marcondes, Raimundo Doca e Buega, era a primeira vez que um filho de Zé Gadelha governava a terra de Bento Freire.

Salomão disputou sua última eleição em 2010 como candidato e deputado estadual. Fez uma campanha tão desastrosa quanto divertida. Sem apoio da família, que já havia fechado com o primo André, e abandonado pelos ex-auxiliares da prefeitura, ficou sem palanque e apelou, como sempre, para a criatividade – e inventou o comício do tamborete. Espalhava o popular objeto em determinado bairro e recorria a uma dupla de excelentes oradores para atrair a multidão – ele mesmo e a filha Maria Alice. Os eventos, sucesso de público, contrastaram com o péssimo resultado das urnas.

Derrotado, era natural que Salomão ficasse chateado com a cidade que governara por seis anos e que lhe dera uma votação pífia. Que nada. O prefeito que desafiou a Cagepa, criando a empresa municipal de água e esgoto, e recorreu à energia solar para expulsar da cidade a também impopular Energisa, deixou de lado a tristeza eleitoral e envergou sem trégua alguma outra bandeira, a do petróleo. Foi animado por esse novo objetivo que Salomão tomou o caminho de Sousa para fermentar o debate sobre uma alternativa de riqueza para a região. Não deu tempo. Antes de Sousa, havia uma pedra no meio do caminho, Pombal. Foi ali que Salomão interrompeu seus incontáveis sonhos e, como disse Getúlio Vargas, saiu da vida para entrar na história.