Vou tentar fechar olhos e tentar redescobrir a nuances e os comportamentos de um passado que parece intangível, pouco palpável, embora temporariamente não tão distante. Recordo-me muito bem do quanto eu me envolvia com as palavras e fazia delas a transformação e a evidência de meus sentimentos mais subreptícios, arrimados sob a contestação do óbvio e da erudição eventualmente forçada. Confesso que não sinto tanta saudade desses dias, porque hoje a felicidade desaba sobre os meus olhos e meu rosto retina a leveza de minha alma e do meu coração, contudo, como já diria o poeta, para se fazer um samba, tem que ter um pouco de tristeza, e mesmo, num turbilhão de alvíssaras, sinto uma necessidade quase que permanente de deitar-me no chão, cerrar o mundo, embebedar-me de suor, em uma cálida e árida tarde dos sertões, daí sentir o nada e a solitude desejada, no sombrio do cômodo, da mobília lúgubre.
Parece que, apesar de toda essa combustão de sorrisos e afetos, mais vale o sabor desse momento tão peculiar e que pensava eu ser tão longínquo na memória e no tato. (É sofreguidão viver sob apanágio dessa sensibilidade mutante que nem os deuses controlariam). O jeito é mudar as formas, colorir o contexto e saber que continuo sendo a nuance perdida como meus reles amigos e companheiros ressaltavam sempre. Concluo, pois.
Sousa, 01 de Novembro de 2013
L.
sexta-feira, 1 de novembro de 2013
quarta-feira, 10 de julho de 2013
Uma cidade cheia de espíritos é a minha
Uma cidade cheia de espíritos é a minha cidade. Mas, ainda
assim, devo lembrar de que quem não tem raízes, o vento leva. E tendo Hesse dito
que há gente que são folhas arrancadas, e outras que são tão perenes quanto os
planetas que rondam o sol, seguindo sempre sua órbita e rotação, sem que
qualquer evento as tire de sua rota, esta lição não me serviu.
Sou como uma folha arrancada, mas também as folhas arrancadas
não têm raízes? O grande paradigma é que elas caem e se esvaem ao sabor dos
ventos e das brisas. No meu caso, de uma brisa atlântica. É a brisa atlântica
que agora faz meu rumo, e me dá medo que me leve à África, de tão solta que
estou.
Não obstante, fazem-me falta aquelas tardes quentes, de calor
tão lânguido que chegava a arrefecer o coração. Mamãe dizia que devíamos sair
alinhados, mesmo que o linho nos aquecesse mais do que outras vestimentas leves
e mais apropriadas para o semiárido. Sair em linho era sair arrumado, e era
deste modo que nos vestiam para os crepúsculos, na praça do Cristo.
Afeiçoei-me às praças, como me afeiçoei a Charles de
Gaule em Antibes, e quis encher Sousa de chafarizes, na esperança ingênua de
transformá-la em uma cidade mais úmida. Os arfantes e pueris desejos de uma
adolescente que, embora num país distante, sentia falta mesmo era de seu amplo
terraço de piso vermelho numa casa chamada Casa Grande.
Quando eu ainda era bem pequena, naqueles
tempos amorfos, onde tudo que podemos lembrar não são senão sensações e imagens
retalhadas, poucas memórias me vêm tão vivas quanto os finais de tarde de calor
abafado na praça do Cristo em Sousa.
Como disse, tenho muito apreço por praças. Nos meus primeiros anos, tudo quanto eu fazia era me
alinhar para, junto com meu irmão Lafa, sairmos às praças, subir as escadas do
coreto na Matriz, admirar a estátua de vovô José e a árvore plantada por Lella
e Zé Neto no Bom Jesus, sentar nos bancos da André Gadelha até a noite cair,
e esperar, ansiosamente, pelos pasteis quentinhos das querubinas, que sairiam,
pontualmente, às seis da tarde.
Na BomBolado, meu desejo era
sempre o de uma recheada banana Split, mas nunca podia - apenas uma bola de
morango: você não consegue comer sorvete tão grande, diziam-me. E fiquei com sonhos
de banana Split até hoje, como se não pudesse nunca me deliciar com as
sobremesas dos cartazes.
Um dia, fui agraciada com esse direito, e, com
grande desapontamento, na tenra idade de quatro anos, vi que os cartazes nos
dizem mais mentiras que os homens que nos beijam com olhares apaixonados, mas
cheios de sentimentos vis.
Morei em Sousa até a idade de
cinco. Mas minha festa da padroeira continua sendo a Festa de Setembro. Fui à Festa
das Neves em alguns cincos de agosto, aqui em João Pessoa, e acho que em nada
se parece com uma verdadeira quermesse.
Roda gigante só tem sentido se eu
puder ficar frente a frente, com a torre da Matriz. Fitamo-nos sempre com tanta
cumplicidade, como velhas amigas, que até quando ela caiu, eu senti que ainda
estava lá, porque é assim que acontece com aqueles com quem dividimos nossas
vidas: longe dos olhos, mas sempre perto do coração.
Viajei para Sousa tantas vezes
que, no fim das contas, sinto que a minha casa é a BR 230 ou, melhor, a rodovia
Antônio Mariz. E, indo para a cidade Sorriso de carro, tão sozinha, nas sinuosas
curvas da estrada da viração, penso que estou sorrindo para quem pode olhar do
céu, já que o antigo governador que deu nome ao caminho, dizia que, quando em seus voos,
ou discursando do alto de um palanque, sob a luz das gambiarras que parecem acender
aplausos, pensava que Sousa lhe sorria.
É um vale sorridente, pois sim. De
ruas largas, mas feitas de paralelepípedos. E o cheiro mais aprazível do mundo
inteiro é o dos paralelepípedos noturnos, molhados da chuva forte que cai por
sorte na semana santa, ou por destino, no mês de janeiro. E as gramas dos
jardins se enchem de sapos, e as pequenas meninas, pensarão como eu pensei um
dia, sempre em príncipes que um dia lhes namorarão naqueles gramados.
Do sertão fui retirante, mas não da seca. O bicudo que travou
os imensos campos de algodão e trouxe meus pais ao litoral. Uma usina
desfalecida, um apartamento pequeno no 777 da Edison Ramalho. E João Pessoa descortinou-se
para mim como uma imensa metrópole, cheia de luzes que até então eu nunca tinha
visto.
Minhas luzes eram os vagalumes que
perseguíamos no quintal da Casa Grande, e - perdoem-me o bucolismo de uma alma
saudosa - as das estrelas de tempos imemoriais, que eu via da rede do Terraço
de Piso Vermelho, enquanto minha mãe me balançava impaciente, porque nenhum
menear de rede, cantiga de ninar ou colo de quem nos ama tanto era capaz de me
fazer dormir.
Eu só dormia com a voz de barítono
do meu avô e o teclado de vovó, entoando ao longe aquele “negue, o seu amor e o seu carinho...”, ou com o saxofone de Tio
Nias, cheio de baladas de um jazz que nem ele próprio sabia decifrar. O Mal de
Alzheimer tomou o som destes preciosos homens, e me deixou insone até esses
tempos modernos, quando nem mesmo uma velha radiola consegue embalar meu sono.
No lugar de vagalumes, passei a
caçar tatuís e caranguejos na praia de Camboinha. Os tatuís são bichinhos
fugidios que escorregam das nossas mãos, ao tempo em que as ondas se afastam da
areia. Já as conchas são seres mais mansos. Parecem ansiosas para servirem de
colares. E assim é que esfolávamos suas pontas, até fazerem um buraco na ponta,
para transpassarmos por ela um barbante e pendurarmos orgulhosos em nossos
pescoços, como verdadeiros catadores de conchas, de tão frustrados que estávamos
com os tatuís.
Mas a grande frustração era a
ausência de praças, que nenhum sargaço, por mais suculento que se mostrasse,
poderia suprir. A praça do Bom Jesus, animada as seis da manhã pela música
sacra que fazia tocar padre Dagmar. E, quando ele morreu, achei que tinha
morrido todo o sentimento da Igreja, e nem mais me dava medo o Jesus Morto feito
de cera, preso num caixão nos fundos da sacristia.
Eu acreditava de verdade que
aquele Jesus Morto era o próprio Jesus, e, por isso, a minha cidade era a mais
importante do mundo, porque conservava o corpo do Cristo incólume nos fundos de
uma paróquia de arquitetura dos anos 1970. Uma Igreja que antes se assemelhava
a uma repartição pública, e que depois me deu a compreensão de que o Jesus
Morto era o único finado que ali ficaria, já que meus pais foram velados
naquele altar e, muito cedo, antes do que eu queria e esperava, naquele dito
momento de louvor, levados para um cemitério próximo.
Uma cidade cheia de espíritos
vivos, também. Embora a noite seja tranquila, do meu terraço de piso vermelho,
o vento que vem do Aracati me permite pensar que comungam junto comigo o
litoral e o sertão. Sinto em seu cheiro, mesmo que distante, os sinceros
desejos de Iemanjá. Ela diz ”venha comigo”, e eu peço, “deixe-me ficar”. Sento
as cadeiras de balanço na calçada, mais serena do que atormentada por essas
aparentes antinomias. Balanço-me como quem tem sono, bocejo como quem vou
dormir, mas a Aurora vem de assalto, como a princesa do conto que despertou
depois de cem anos, sem ter envelhecido nada, sequer.
É assim a minha cidade. Que faz
mais um ano no Frei Damião, na Guanabara, na Várzea da Cruz, no Alto do
Cruzeiro e em tantos outros bairros onde presenciei comícios que sempre me aconchegaram com
a certeza singela de que não há luzes mais bonitas que as de vagalumes e
gambiarras mal dispostas.
Um dia, amanheci cedo no Angelim,
em rondas de campanha, vigiando aqueles que compram votos. Vi o sol nascer de
longe, emergindo, como para iluminar o Cristo Morto, inerte, na Igreja do Bom
Jesus Eucarístico. Mas não era o Cristo morto o seu desígnio, mas antes o
Cristo erguido na praça dos meus alinhos. O Cristo alto, austero,
misericordioso, como deve ser. O Cristo do milagre da hóstia.
Caminhei até lá intrigada. Vi
algumas velas se apagando com o amanhecer. Aqueles pedidos tão queridos. E, em
vez de pedir por mim, pedi por cada desejo aceso na noite anterior, em cada uma
daquelas velas. Vagalumes, estrelas, luzes de edifícios, não importa. São luzes
da cidade acesa que duram para muito além da alvorada.
O 10 de julho me tomou de assalto,
atraiu lembranças, machucou o coração apertado de quem não pode beijar de perto o
aniversariante que tanto lhe deu amor. Vivo na capital, aprendo no Leão do
Norte, visito a Borborema com carinho. Mas ser do sertão é talvez a tola
esperança de nos acharmos tão fortes quanto uma cidade árida, submersa num vale que sorri. E isso sempre nos valeu.
M.
domingo, 23 de junho de 2013
Para meu tio Hellosman
Quando minha tia Andrea casou com
meu tio Hellosman, ela certamente não sabia que, dentro de muitos anos, estaria
me dando um grande presente. Isso acontece com muita frequência, de as pessoas
que amamos trazerem para nós outras pessoas, para que amemos e sejamos amados.
Apesar de tio Hellosman ser extremamente sistemático, metódico e organizado, ou
seja, o oposto da minha personalidade, nós sempre nos demos muito bem.
Acho que, no fim das contas, é
bom ver e admirar no outro um pouco daquilo que a gente não tem. Eu o admiro bastante e, no melhor dos sentidos,
invejo sua capacidade de ser pontual e preciso em tudo que faz. Mas o que gosto
mais nele, é o fato de ele me compreender nas minhas mais profundas minúcias e,
ao passo em que eu contemplo seu grande aparelhamento para resolver dez mil
questões em claros e luzidios quinze minutos, acredito que ele aprecia minha
imensa leveza e estado de espírito, quase sempre de graça.
Nunca poderíamos mudar de lugar e assumir um
as características do outro – nem em outra galáxia – mas é sempre bom, entre
uma garrafa de vinho e suas controladas quatro doses, sempre se mantendo
alegre, mas sóbrio, trocar ideias sobre os sabores e dissabores dos encontros
intensos que a vida proporciona.
Nestes jantares de família,
desenvolvemos uma brincadeira divertidíssima: escolher, cada um, qualquer lugar
do mundo para onde gostaríamos de ir naquele momento, e descrever como seria a
viagem. Eu me decidi pela Rússia, tia Andrea optou por Paris, minha prima Grace
preferiu Nova Iorque, meu irmão Lafa, ocasionando uma gargalhada geral, pensou
logo em Areia (mas eu mal conheço o brejo paraibano! – justificou – e não é tão
menos frio que esses lugares - complementou, aturdindo-nos). Meu tio
Hellosman, parcimonioso em suas sempre
tão bem escolhidas palavras, disse-nos que queria visitar Antibes, tal como eu
fizera, há cinco anos, pegar um trem para a pequena vila de Eze-sur-mer e
descer a ladeira da cidade em um Rolls Royce.
Como dito, embora eu muito duvide
que meu tio seja capaz de fazer isso, tal como eu fiz, ele é enlouquecido por
essa história. Sempre me pede para conta-la, principalmente na frente de
desconhecidos. Contei-a tanto, até introduzindo novos elementos, que, às vezes,
perco-me no que de fato aconteceu e no que fui criando para incrementar o
conto, já que, como sempre me pus em dúvida se o ocorrido foi assim tão
realmente fantástico quanto o crê meu tio, dá-me medo de não surpreender tanto
os novos ouvintes.
Última justificativa deste longo
prólogo, considerando-se o objeto da prosa, que será até mais curto: meu tio é
muito fã de meus escritos. Há alguns anos já vem pedindo para eu escrever sobre
o rolls royce descendo a ladeira de Eze-sur-mer. Por amor, então, eis o relato.
Aos dezessete anos, ganhei de
presente uma viagem de intercâmbio. Na agência de viagens, apresentaram-me um
sem número de opções nos Estados Unidos e Inglaterra, para que eu aprimorasse
meu inglês. No fim da lista, havia uma alternativa pouco levada em conta: a
Riviera francesa.
Meu francês era ainda raso, à
época, o que me levou a pensar que quatro meses na Côte d’Azur não fariam muita
diferença. Era melhor continuar na Aliança e, até atingir um nível mais
avançado, fazer esse passeio. No almoço de domingo costumeiro, meu tio deu o
voto de divergência: melhor a França. Nesses meses, você vai voltar falando
francês melhor do que Carla Bruni. Se não, o charme que sessenta dias em
Antibes vão lhe dar não valem o vocabulário em inglês desse escasso tempo.
Não titubeei mais. Comprei um
dicionário, alguns livros e a passagem de avião. Aportei no aeroporto de Nice
em um dia bastante chuvoso, mas, mesmo assim, pareceu-me o aeroporto mais lindo
do mundo. Um gentil alemão veio me buscar: era estudante do Centre
International d’Antibes e funcionário. Pagava o curso com esses pequenos
serviços. Falou-me que Nice era bem próxima de Antibes e que, depois, eu
poderia pegar um trem para conhecer melhor a cidade.
Cheguei à escola, onde, para
minha felicidade, depois de um pequeno teste, fui inserida em uma classe para
alunos de nível intermediário. Chegando à residência, outra grande alegria: meu
quarto tinha uma sacada de onde se avistava o mar azul turquesa e os aviões que
não paravam de nos sobrevoar, devido ao intenso fluxo de veraneio nas paragens.
Esse terraço me rendeu algumas das
melhores noites da minha vida, regadas a vinho de três euros, imensas baguetes,
rodelas de tomate e vários vidros de azeite – motivo dos cinco quilos a mais no
retorno.
Além disso, a área comum contava
com um bar excepcional. Não que ele tivesse nada de outro mundo: sequer serviam
petiscos. Mas um chope gigantesco custava o módico preço de um euro e a música
era escolhida por nós. Sessões de gaitas escocesas, folclores alemães e muito
Bob Dylan faziam parte da trilha sonora.
No calor lânguido da Riviera,
rodeada por uma diversidade de pessoas e histórias agradáveis, jantares às oito
da noite ainda admirando o por do sol, permissivos de longas esticadas nas praias,
bronzeando-me, comendo amendoins e lendo romances de Fitzgerald, transcorreram
quase quatro meses, para o meu pesar, bastante ligeiros.
Com vestidos soltos, claros e
leves de passeio, eu me sentia uma verdadeira artista, sentada em cafés e
fazendo anotações sobre os transeuntes, iniciando meu custoso vício pelo tabaco
(os cigarros oneraram em muito minha viagem) e por deliciosos sorvetes
italianos.
Havia os pequenos passeios para
as cidades próximas. Minhas amigas queriam visitar as mais famosas, como
Cannes, ou circular demoradamente e repetidas vezes por Nice. Tive que fazer
sozinha um roteiro, já antes escolhido, pelos pequenos vilarejos para pouco
antes da fronteira italiana. Um deles era a pequenina Eze-sur-mer. Ninguém se
interessou pela ideia. O lugar ficava no alto de uma encosta, tinha apenas uma
igreja antiga, ruas estreitas e a vista mais bonita de toda a Costa, na minha
opinião.
Tomei um trem que chegava até um
ponto onde se pegava um ônibus. Esperei cerca de uma hora na parada, ao lado de
dezenas de turistas ingleses velhinhos. Durante o caminho, numa ladeira
sinuosa, com mais curvas que o corpo da princesa de Mônaco, tranquei-me em
minha própria mente, absorta diante da paisagem estonteante. Claro, mas muito
claro, sobretudo para aqueles que me conhecem, que não prestei atenção em
nenhum dos avisos que o motorista deu quando nos deixou, dos quais só tomei ciência
várias horas depois: só havia um ônibus que saía da cidade, em apenas um
horário, pontualmente, às seis da tarde.
Fiquei deliciada: lá em cima, o
ar era mais frio, a vista mais bonita e eu estava, finalmente, sozinha – não aguentava
tagarelices por muito tempo, ainda que gostasse muito de estar na residência
com meus amigos. Acendi um Marlboro light e saí sem destino pelas ruas
inclinadas, estreitas e cheias de ladeiras. Vi a igreja velha, fiz algumas
orações, sentei no banquinho da praça na frente, embaixo de uma gigantesca
árvore de não sei o que, que me fez sombra até eu me cansar dos meus próprios
pensamentos. Desci para a cidade baixa, consultando restaurante por
restaurante, mas, como ainda eram cinco horas, nenhum estava aberto “ni même
pour un petit vers de vin”.
Chateada, é que me sentei num bar
que mais parecia um boteco da Lapa, pedi
uma cerveja, alguns amendoins e uns vários guardanapos, já que meu
caderno de notas estava completamente cheio. Pus-me a ensaiar rabiscos e a
escrever, sem contar quantos copos já havia entornado.
A noite caiu, uma enorme lua
cheia e amarela parecia sair de dentro da encosta e eu não podia estar mais
saciada. Era o melhor cenário para uma pseudoartista, que, ante a ausência de
seriedade inerente aos 17 anos de todos nós, como bem ensinou Rimbaud, fazia-me
sentir a maior das artistas. Ali era um pedaço da minha vida que eu jamais
esqueceria, sobretudo quando estivesse recebendo o nobel da literatura.
A sozinhez de uma moça charmosa,
embriagada e escrevente é um atrativo maravilhoso. De repente e não mais que de
repente, o resto não era o silêncio: minha mesa agora eram quatro, onde se
sentaram um casal de turistas americanos, um grupo de jovens , também pretensos
artistas franceses, um sedutor italiano
de meia idade e uma senhorita alta, magra, desbocada e cheia de ideias
socialistas.
Era um filme de Woody Allen.
Desenhei e fui desenhada. Escrevemos poesias em conjunto, recitei alguns versos
de Vinícius e inventei folclores brasileiros: mas como vocês não sabiam que, no
Brasil, antes do Natal, é costume caçar coelhos e servi-los no lugar do peru?
Ninguém lhes contou que os índios ainda comem bispos portugueses,
surpreendendo-os quando das visitas nas arquidioceses locais? Bem, é um
resquício da catequização, sabem?
O dono do bar emprestou um violão
e, se alguém soubesse, a internacional socialista teria sido cantada. No lugar,
entoamos algumas canções dos Beatles e eu tentei, sem sucesso, puxar um coro de
Belchior.
A noite caiu, a lua subiu mais
alta, o sono chegou de assalto. Os artistas franceses propuseram dar
continuidade à festa, mas, com o pouco de razão que ainda me assistia,
lembrei-me que, se voltasse depois de duas da manhã, talvez encontrasse a
residência fechada. Despreocupada, informei, para a tristeza de todos (longos
“ahs” e sinceros suspiros me foram dispensados), que precisava pegar o ônibus
de volta. E ainda havia a viagem de trem. Trocaram olhares furtivos, e logo fui
informada que só havia ônibus no dia seguinte. E para descer? “Ninguém desce
depois da meia noite, mademoiselle”. Estava
sitiada. Mas eu preciso voltar.
Ofereceram-me a opção de pernoitar na casa de alguns deles, o que, também
assistida pelo fim de juízo que ainda tinha, rejeitei, educadamente. Um hotel,
haveria? Lotado. Taxi? O único taxista da cidade estava tão ébrio quanto eu.
Bem, pode-se sempre chamar o
Loic. Mas o tal de Loic parecia uma alternativa complicada. Loic servia de
chofer para turistas ricos, tinha um rolls royce antigo e não cobrava barato.
Mas, que fazer, era minha única saída, literalmente. Eu voltaria para o Brasil
dentro de poucos dias e, como havia economizado meu dinheiro, gastando-o,
basicamente, com álcool e cigarros, podia me dar ao luxo de descer a ladeira em
um rolls royce.
Assim, ligaram para Loic, que
chegou em seu belíssimo automóvel, fardado, como deve ser, já abrindo a porta
para mim como se eu fosse descendente da casa de Orleans e Bragança. Despedi-me
de todos alegremente, com cumprimentos de realeza, cheia de endereços na mochila,
com promessas de cartões postais jamais cumpridas. Entrei no rolls royce no
estilo de uma grande dama, imaginando se Grace Kelly já teria vivenciado
instante tão sublime.
Loic era reservado, mas eu ainda
estava falante. Abri os vidros do carro e sentei-me na janela como costumo
fazer nas carreatas em Sousa. Fui, instantaneamente, proibida, pela
suntuosidade do carro e sinuosidade da ladeira. Mas é claro que a mademoiselle não queria se acidentar,
correto? Dizendo isso, meu chofer abriu o teto solar, e, no segundo subsequente, minha silhueta
emergiu do capô, de braços abertos para abraçar, ao mesmo tempo, o mar
espelhado, a lua enorme e amarela e os invariáveis aviões que traziam novos e
brilhantes espíritos para iluminar a Riviera.
M.
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
Do TDAH
Do TDAH
Hoje eu acordei bastante preocupada com minha capacidade
concentração. Há muito não sentia isso. Desde a época do colégio, devo dizer.
Durante a faculdade, por eu ter me apaixonado, perdidamente e logo no primeiro
ano, por Miguel Reale tanto quanto sempre fui por Tolstoi ou Marília Arnaud,
não tive as dificuldades que sofri enquanto estava, sobretudo, no ensino médio.
Quase mato meus pais de preocupação. Eles não conseguiam
compreender como alguém que lia tanto, literatura já avançada para minha idade,
que passava os domingos trancada no quarto, rodeada pela Folha de São Paulo e
contos de Córtazar, pudesse ter alcançado a façanha de ter ficado em recuperação
em todas as matérias, à exceção de história. “Ué, mas você não lê tanto?” –
minha mãe perguntava, com um misto de sarcasmo e repreensão – “Não é tão boa em línguas?”. Isso
porque, à época, eu já falava inglês e francês em certo avanço. Sim, eu havia
ficado em recuperação em português e inglês, mesmo sendo boa em línguas. Eu
conseguia escrever e falar, mas como explicar
orações subordinadas e expressões adverbiais?
Não
me orgulho disso. Como também não me orgulho de ter passado no segundo ano
científico pelo temido conselho de classe, porque os professores tiveram um
pouco de misericórdia e talvez um pouco de bom senso (a frustração de uma
reprovação para uma adolescente talvez seja pior do que o desconhecimento total
da trigonometria e geometria espacial).
Meu
primeiro ano do ensino médio, em especial, é que foi, de fato, o período de
crise mais grave: tinha insônias torturantes, chegava a ficar três ou quatro
dias sem dormir. Levaram-me para passar um mês em Sousa, a título de castigo.
Resultado é que eu saía de casa na surdina, fazia rondas à pé pela cidade,
jogava baralho com alguns vigias e iniciei meu caminho na sinuca e na cerveja.
A noite é perigosa para quem tem só catorze anos, e mais perigosa ainda para
quem tem catorze e acha que tem cinquenta
Foi
nesse tempo também que comecei a tomar café como quem toma água: apesar de sentir
sono durante o dia, não conseguia mesmo dormir. Então me enchia de café para
viver o dia como um zumbi. Tinha um amigo especial, Seu Rubismar, que tinha uma
loja de CDs. Ficava lá das duas da tarde até à noitinha, ele me mostrando os
sons da década de 50, 60, até as novidades dos dias atuais, ele, o primeiro
pirateador de cinquenta anos da Paraíba, no meu sentir. Em 2003, 2004, já
baixava tudo pela internet.
Um
dia, Seu Rubismar encontrou papai e contou-lhe de nossa amizade. Meu pai ficou
feliz e surpreso. Disse-lhe que eu era muito inquieta. Seu Rubismar tomou
aquilo com espanto: inquieta? Ela passa a tarde inteira sentada, tomando café e
ouvindo música.
Daí
surgiu, mais uma vez, a ideia de que meu problema não era de concentração ou
inquietude, mas pura preguiça. Mamãe voltou a me ralhar: você vai ficar igual
aos Pordeus, lendo, ouvindo música e tomando café sem parar. Os Pordeus são a
família do meu avô, do pai da minha mãe, que têm uma veia artística muito
desejada por mim, não inscrita nos meus genes, infelizmente.
O
grande paradigma a ser enfrentado era como eu conseguia me concentrar tanto em
algumas atividades, até demais, ao ponto de conseguir terminar um longo romance
em um final de semana, aprender francês em um ano, ao passo em que era incapaz
de passar quinze minutos resolvendo questões de física, matemática ou até mesmo
– pasmem - estudando geografia.
Para
mamãe, como disse, era simplesmente preguiça e capricho. Eu só fazia o que
tinha vontade e ponto final. Papai era um pouco mais compreensivo, porque
achava que eu não podia ser um fracasso total na vida já que conseguia pelo
menos ler. Falava, por vezes,
brincando, quando mamãe explodia comigo: ela pode ser crítica literária, né? Ou
de cinema!
Nada
disso era bom para mim. Apesar de muita gente me admirar e me achar bacana, eu
sofria muito por não ter um desempenho no mínimo regular no colégio. Por não
ter ideia de como passaria em um vestibular, faria faculdade, por não saber em
que profissão me encaixaria.
Fora
a concentração, havia outros problemas. Desorganização extrema (não adiantava
arrumar o quarto pela manhã, à noite ele já estaria, novamente, um caos),
paixão por aventuras (pegar carona com desconhecidos, inclusive em países
estrangeiros, como bem me lembrou minha prima Carol, recentemente, alugar
teatros fingindo ser uma adulta, pedir motos emprestadas e sair desembestada
pela cidade), total inépcia para a pontualidade, sobretudo em razão dos meus
horários pouco convencionais.
Assim,
eu carreguei durante minha adolescência inteira um sentimento de insuficiência
e incompetência extremos, que me conduziram a uma baixa autoestima, e à
sensação suprema de incapacidade. Não raro, ficava apática e muito, muito
melancólica.
Um
dia, estávamos numa livraria, eu e mamãe e vimos um livro chamado “Mentes
Inquietas”, da mesma autora de “Mentes Perigosas”, que fez sucesso
recentemente, Ana Beatriz Barbosa. Acho que o livro acabara de ser lançado.
Mamãe nem leu a sinopse no verso. Pronto, é isso aqui que você é, uma mente
inquieta, ela sentenciou. Eu li o livro primeiro, de assalto. Caladinha, mandei
que ela lesse.
Descobrimos
que existia uma doença, sim, doença, chamada Transtorno do Déficit de
Atenção com Hiperatividade, e que, pior, eu me encaixava perfeitamente na
descrição dos “sintomas” da doença. Naquele tempo, o termo mais usado era DDA –
Distúrbio do Déficit de Atenção, sendo a hiperatividade um aspecto da doença,
sendo esse aspecto o que menos me aproveitava. Eu não era de um todo serelepe,
traquina, de subir em árvores. Mas roubava motos, carros (aprendi a dirigir aos
doze anos) e não conseguia dormir.
Não
foi a solução de todos os problemas, não. Ao contrário. A preguiça tinha
conserto, correto? Mas e uma doença? Um transtorno mental? Acho que mamãe se
aperreou mais ainda, para ser sincera, porque continuou dizendo que eu tinha
mesmo era síndrome de Macunaíma. Foi minha irmã mais velha, que já era médica
residente, que pensou que aquilo tudo podia ter algum sentido, sim, e convenceu
meus pais a me levarem a um psiquiatra no Recife.
Para
uma adolescente já cheia de conflitos, a ideia de precisar ir a um psiquiatra
não foi das mais confortáveis. Além de incapaz e inapta, senti-me muitíssimo
frágil. Na primeira consulta, o médico disse sem rodeios que eu tinha, sim, o
tal Distúrbio de Atenção.
Mamãe
não se conformou. Queria uma tomografia ou algo similar que provasse isso.
Insistiu na teoria da preguiça. Disse da minha paixão por literatura, música e
cinema. O médico, gentilmente, perguntou-lhe mais uma vez se ela tinha lido o
livro que havia nos levado ali, e se ela se recordava de um tópico que falava
do hiperfoco.
Ela
continuava relatando como eu passava quatro ou cinco horas lendo, “só lendo,
doutor! Vê três ou quatro filmes em sequência! Como essa menina tem problema de
atenção?”. Pois bem. O doutor informou que preferia não chamar exatamente de um
problema de atenção, mas de um desvio. Que minha atenção era extremamente, mas
de uma forma muito extrema mesmo, direcionada para os assuntos pelos quais eu
sentia mais interesse. Que o fato de eu ser espacialmente desorganizada se dava
também por eu devanear demais.
Claro
que mamãe não engoliu essa conversa. Até eu, até hoje, e depois vou explicar
melhor, fico um tanto quanto reticente em relação a essa tese. No dia mesmo
fiquei. Porque, ora, se eu só conseguia atentar para o que gostava é porque
tinha preguiça do resto das coisas e fazia tão somente o que desejava. Ou seja,
caprichosa e preguiçosa, mesmo. Mas, segundo o psiquiatra, não era uma escolha
minha. As pessoas “normais” conseguiam direcionar a atenção, os portadores (e imaginem que susto é ouvir
essa palavra) de TDAH simplesmente não conseguem.
Mas
havia um remédio, sim, e não era só o café – pois não é que até meu vício pela
cafeína restou explicado? Era uma droga chamada Ritalina, e eu tinha que
começar a tomá-la imediatamente. No mesmo dia compramos, no dia seguinte
comecei a tomar. Os efeitos foram devastadores, para mim. Perdi alguns quilos e
consegui me focar em quase tudo e, uma novidade, em biologia, porque fiquei
admirada com aquilo que o doutor explicou serem os responsáveis pelo meu mal:
os neurotransmissores. Não eles em si, mas a deficiência de um em específico, a
dopamina. Até hoje não sei como funciona, mas, ao que parece, a ritalina regula
os níveis de dopamina no cérebro.
Para
o espanto e maravilha de todos, tirei vários dez em biologia e até um em
matemática, seguidos de um nove em física. Por outro lado, fiquei muito calada
e abatida. Hoje não sei realmente se foi a ritalina que me deixou assim. Talvez
a ideia de ter uma doença, de precisar de um remédio, de ser tão jovem e me
perturbar tanto tenham sido fatores mais fortes para gerar em mim um aspecto
sorumbático, ao ponto de o professor de física dizer que gostava mais de mim
quando eu tirava cinco e conversava mais. Entretanto, no auge dos meus
complicados catorze anos, a explicação mais plausível é de que tinha sido a
droga, sim.
Então,
tomei uma decisão bastante séria: parei de tomar a ritalina sem dizer a
ninguém. Meus pais continuaram comprando o medicamento por mais uns dois anos,
sem sequer saber que eu só o tomei por alguns meses, oito ou nove no máximo. Às
vezes eu fazia a revenda para uns CDFs que queriam se concentrar ainda mais.
Outras vezes só jogava no lixo, mesmo.
Aos
dezessete anos, agarrei-me à tese de mamãe: eu era preguiçosa e tinha que
corrigir isso. Não precisava de um medicamento. Pensei que essa história de
TDAH era balela para alimentar a indústria farmacêutica. Veio a faculdade e,
como disse, meu hiperfoco foi bem vantajoso, já que podia estudar por horas a
fio Direito Constitucional e Processual Civil. Não tive a mesma sorte com o
Direito das Coisas. Até hoje tenho sequelas de tanto repassar páginas falando
sobre o direito de sequela.
A
maturidade diminuiu alguns arroubos. E assim fui me ajustando. Outro dia, li um
tuíte de Ana Beatriz Barbosa, que também tem TDAH, dizendo: “perguntaram-me se
eu tive TDAH. Eu não tive, eu tenho. Só aprendi a viver com ele”. Pesquisei
sobre TDAH na vida adulta e aí vi que continuo me encaixando direitinho na
descrição dos portadores. Não quero dissertar sobre isso, já adentrei demais na
minha vida pessoal. Entretanto, li um interessante dado: apenas um percentual
de 30 a 50% das crianças com TDAH continuam a sofrer do mal na vida adulta.
Desconfio muito disso. Como disse Ana Beatriz, a gente aprende a viver com a
desatenção, com a desorganização e vai ajustando nossa vida para que esses
aspectos não nos prejudiquem tanto. Alguns conseguem fazer com um grau menor de
maestria e, por isso, são inseridos no percentual acima mencionado.
Então,
se esse ajuste é possível, a doença existe? Bem, hoje, como mamãe, eu queria
muito que uma tomografia me provasse. Não sei se os Pet-scans fazem isso, mas,
enfim, parece que ainda temos que confiar na subjetividade psiquiátrica que, cá
para nós, não é das mais confiáveis, e não sinto vergonha em dizer que falo por
experiência própria. Claro que mamãe não me levou só em um psiquiatra. E,
depois, mais tarde, quando ela já tinha falecido, visitei alguns, mais por
tristeza do que por desatenção. Encontrei muitos irresponsáveis e recebi
diagnósticos bastante confusos. Por isso, prefiro resolver meus dilemas com a
psicanálise, que é subjetiva, mas não inventa de medicar e, pelo menos não na
minha vivência, também não rotula.
Já
com 21 anos, descobri que um dos papas do TDAH no Brasil, o Dr. Salomão
Schuartzman, estava em João Pessoa, para uma conferência sobre autismo
organizada pela minha tia. Depois de muita persistência, consegui uma consulta
com ele (até porque também queria um autógrafo do seu livro, que tinha desde os
catorze anos). É um senhor muito sereno, que me ouviu atentamente e confirmou,
sim, o meu diagnóstico de déficit de atenção. Eu posso não tomar a ritalina?, perguntei.
Era o meu maior medo, dada a malfadada experimentação adolescente. Pode, ele me
respondeu tranquilo. Só vai ser mais difícil, mas também acho que você já sabe
como é.
Não
sou contra fármacos para a mente. Acho que falta de dopamina é o mesmo que falta
insulina, e não podemos nos furtar a toma-la. Todavia, como os efeitos da
ausência da substância são diversos numa e noutra enfermidade, ainda posso me dar ao luxo de arriscar
os meus métodos e minha capacidade de transformação.
Passei
muito tempo achando que o cérebro era algo estanque, que éramos determinados
pelo oráculo genético de Steven Pinker, sem alternativas. Hoje, penso que,
embora dentro desse oráculo genético, há algumas opções. Pode ser pueril. Minha
irmã mais velha ainda insiste para que eu tome a ritalina, mas minha
resistência a ela foi profunda, porque afetou um lado da minha personalidade do
qual eu sempre gostei muito: minha espontaneidade, extroversão. E perder isso
novamente, ainda que por alguns meses, não me é compensado por conseguir ler
algumas páginas a mais. Pelo menos por enquanto.
Algo,
todavia, há de ser advertido, para pais e adolescentes: o TDAH existe, não é
uma invenção da indústria farmacêutica, nem uma desculpa para não estudar. Mas
vejo uma profusão do TDAH sem limites. Observo que alguns pais parecem querer
se furtar da responsabilidade de compreender porque seus filhos não estão bem
na escola, e aí empurram ritalina ou concerta (que já foi, inclusive, taxado de
a droga da obediência) goela abaixo. Não é uma simples desatenção que
caracteriza o transtorno, e a irresponsabilidade de alguns pais e médicos ao
aceitar e fazer o diagnóstico de forma precoce, respectivamente, pode ser
extremamente maléfica para o desenvolvimento de crianças e adolescentes.
Já
outros pais, como os meus, por exemplo, podem ter uma atitude relutante no que
tange à aceitação do diagnóstico, e isso também pode ser prejudicial. Vale
lembrar que não é só a droga e, principalmente, ela, isoladamente, que ajuda a
combater os efeitos do transtorno. A terapia é uma excelente medida, no meu
caso, em particular, a melhor. Essa relutância pode acarretar, como acarretou
para mim, em baixa autoestima, sensação de angústia e impotência. Até hoje,
sinto minha confiança assaz abalada, principalmente no campo profissional.
Na
faculdade, um professor veio me contar que seu filho de oito anos tinha sido
diagnosticado com TDAH, sendo a hiperatividade o aspecto mais forte da doença
nele. Disse-me que não iria fazer nada, porque não queria mudar a personalidade
do filho. Apesar do baixo rendimento escolar, achava-o perspicaz e inteligente.
Essa visão é interessante, mas também pode ser maléfica. A droga pode até ser
descartada, mas o alarme do diagnóstico não pode ser sumariamente rejeitado.
Muitas vezes, só a consciência do problema é suficiente para que se façam
arranjos no cotidiano da pessoa e, assim, ajustá-la para o justo cumprimento
das suas responsabilidades.
Só
quem tem TDAH de verdade e sofre com isso sabe que não é um alento ouvir que
TDAH é o mal dos gênios.
Conheço
adultos mais velhos que eu que até hoje têm sérios problemas profissionais,
pessoas com alto grau de inteligência, mas que não conseguem utilizá-la, não
raro por problemas sérios de confiança, por terem sido taxados de preguiçosos e
burros na infância. Comentários desta ordem podem não vir dos pais, como no
caso do meu professor, mas de professores e colegas de classe.
Tive
que fazer muitos e muitos ajustes na minha vida e ainda sofro com os problemas
advindos do TDAH. Tenho insônias recorrentes e embora não deixe de cumprir
prazos, muito frequentemente deixo as atividades para o último momento, mas
tento me disciplinar. Meu cuidado é redobrado. Um esforço diário.
Se
TDAH é simplesmente jeito de ser, modelo de personalidade, a cada dia eu
acredito mais que não. Entretanto, se um modelo de personalidade contém
aspectos que prejudicam de forma maior no nosso cotidiano, é imperioso seja
feito um controle diuturno, aplicando-se doses diárias de ordem e obediência em
nós mesmos.
Sei
que muita gente acha besteira isso de transtorno mental. Tudo o que posso dizer
é através de minha vivência, o que aprendi com o meu próprio sofrimento. E é um
grande sofrimento não ter controle sobre si mesmo, ainda mais em um mundo tão
cheio de overachievers. Invejo essa
gente de disciplina militar, que acorda cedo, corre na praia, estuda, é bem
sucedida e bronzeada sem risco de câncer de pele. Eu esqueço constantemente o
filtro solar, até quando vou à praia (ainda bem que vou pouco) nesta era em que
“use filtro solar” virou bordão.
Ainda
passo por poucas e boas, porque, quando não consigo me concentrar, saio do Alto
Branco e vou bater em Massaranduba. Porque tenho medo de fazer provas,
arrisco-me pouco onde devo me arriscar e, às vezes, passo dos limites onde os
limites devem ser bem estritos. Mas ainda há espaço para essa gente cinéfila, que, mesmo não tendo dom para overachiever, consegue redescobrir toda a alegria e esperança do mundo num longa-metragem
de Claude Lelouch.
sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
Mais uma de amor ;))))
Lafa, para mim, você sempre será o meu irmão mais novo, o caçula (porque Lilice demorou um tempo pra chegar, né?). Hoje vejo em você um homem feito, não só ciente das responsabilidades que tem, mas comprometido com elas. Devo lhe dizer que há muito tempo eu não era tão feliz. Ver você realizado e apaixonado pela vida me dá uma satisfação infinita. Às vezes me ocorre um medo egoísta de lhe perder para o mundo porque, em que pese eu lhe ter como 'meu irmãozinho', eu sempre fui muito mais imatura, dengosa, cheia de caprichos infantis. E você, mesmo sabendo disso, nunca fez questão de me encher de mimos, tantas vezes tão desnecessários. Das coisas do além eu sei pouco e duvido muito. Só que, não raro, eu sinto que nossa conexão ultrapassa os limites da relação de sangue que o destino nos impôs. Se eu lhe conhecesse hoje e agora, seria, inexoravelmente, uma fiel discípula e me faria de pronto sua melhor amiga. Você é o melhor amigo que alguém pode ter. Sua disciplina me irrita um pouco e eu chego a lhe achar enjoado, como acredito que você também se impacienta com minha imprevisibilidade e toda a labilidade emocional. No fim das contas, eu desejo imensamente a sua resolutividade e decisão, porque minhas certezas se esvaem em uma dose de uísque, enquanto você resta calmo, sereno e tranquilo, como naquela música, uma das primeiras que você aprendeu a tocar no violão. Minhas melhores lembranças são com você. As piores também, mas se você não existisse, elas ficariam menos leves. Como você faz graça eu nunca me canso. Como você continua crescendo, eu não me espanto. Como você ama as pessoas, também não me assusta - essa sua empatia natural com todos os seres humanos só desperta em mim a vontade de ser uma pessoa melhor. Lafa, você é uma pessoa inspiradora. Desde menino tão comportado, estudioso, meticuloso que só parece meu irmão ao som de Beatles, Belchior e Los Hermanos. Ou quando para e olha trocado, sem me deixar saber o que você vê, mas discute comigo tudo o que está além da nossa compreensão. Mas é incrível como quase sempre nos damos por satisfeitos com a ausência de resposta e aí, nesse caso, o conformismo não parece uma coisa tão ruim assim. Nós dois sabemos como esses últimos anos foram difíceis e cruéis. Amadurecer no carbureto e virar adulto da noite pro dia foi bem complicado, mas isso nunca nos tirou a alegria de viver, nem de acreditar que dias melhores viriam. E, de fato, vieram. Ainda me assusta a possibilidade de a tristeza retornar, e esse medo, por vezes, é pior que a própria tristeza. Você bem entende como é ter a sensação de que, a qualquer momento, um evento inesperado nos tome novamente de assalto e encha nossos corações de pesar. Mas, como papai dizia, a vida é sempre lançada à queima roupa e a lição mais preciosa disso tudo é que os leões que temos que engolir a cada dia parecem menos ferozes. Você é meu companheiro de batalhas e até hoje não conheci melhor guerreiro. Tão corajoso, Lafa, tão valente você é. Não cabe em mim o orgulho que sinto dos seus tantos predicados. Só posso repetir Che, bater no peito dizendo que endurecemos e não perdemos nunca a ternura. Que o bom do nosso cotidiano são as brincadeiras que não deixamos de fazer, as piadas, não raro as mesmas (ou do mesmo tom de humor- o nosso!), mas sempre tão engraçada, a leveza. Sinto sua falta todos os dias, mais por isso do que por você ser meu grande herói. Amanhã você começa, oficialmente, a dar contornos concretos àquele plano que fizemos lá no Leblon. Sei que você vai fazer tudo certo, que seus ideais manter-se-ão incólumes e que a revolução virá de passo em passo. Queria muito que papai e mamãe estivessem aqui. Fico imaginando o que ele estaria lhe dizendo, como mamãe estaria contente escolhendo seu paletó. Como eles ririam, embriagados de satisfação, toda vez que lembrassem dos seus 2833 votos. Como eles repetiriam, incessantemente, que não vale o poder apenas pelo poder, que quem não vive pra servir, não serve pra viver. Mas você guardou bem, sei que sua memória não falha. Só para garantir, repita na sua mente mais algumas vezes. Que neste ano nós consigamos ter disciplina para cumprir a dieta dos pontos, que seu violão não descanse nunca, assim como nossa vontade de ajudar a quem mais precisa. Que a sensibilidade não falte nunca, mas que a razão também seja amiga (sobretudo minha), que possamos dar mais atenção aos livros e amigos, e não esquecer nunca de dizer o quanto nos amamos e o quanto somos importantes uns para os outros. Eu amo muito você, Lafa. Um beijo imenso e o abraço mais apertado da sua Naná.
M.
M.
terça-feira, 5 de junho de 2012
Sisos
Sisos.
Achei que, enfim, cresceria e que com meus sisos viriam o tão esperado siso de mente, mas não. A sangria desatada na boca me deixou em estado de folia, a dor de cabeça, a inflamação e até um pouco de febre me fez desejar doses cavalares de uísque ou duas garrafas de vinho por noite, sem falar no rivotril, o paraíso artificial mais procurado nos tempos modernos, o ópio do século XXI.
Mas qual o que, não sou deste século. Nasci no 7 de novembro de 1989, para ver um mundo sem muros. No dia 10 do mesmo mês, do mesmo ano, casava-se em Paris meu amigo Jean, para quem a queda do muro resultou na ideia de que a liberdade caminha para onde quer que encontremos sossego. No seu pai, milionário e cocainômano, não viu senão aprisionamento.
Do álcool, veio uma sensação arcaica de precisar fazer uma cirurgia embriagada por falta de morfina, ou pela insuficiência desta. Pensei em grito: anestésicos, onde estão? Mas só um copo - baixo e sem gelo - de old parr, para suprir a alucinação. Nunca tive muitas dores - de corpo - e as da alma aprendi a estancar com estes mesmos instrumentos: destilados e fermentados, como se queira. Uma cerveja, uma sinuca, um tabuleiro de xadrez para trazer a entropia fervorosamente suplicada.
Café quente eu não podia, mas engolia, pelo bem da minha silhueta, que se avantajava dia a dia em razão do carbicídio que me ocorria vez por mês, antes da menstruação. E eu não estava ficando mais jovem, não, tampouco meu metabolismo. Só o elixir preto combatido pelos mórmons me fazia sentir mais tranquila depois de uma fatia de pudim de leite. No mais, o medo de Mitt Romney também aumentava bastante a ingestão: se aqui embaixo eu nada podia fazer por Obama, só me restava a revolução individual. A cada gole, pensava eu, uma mensagem de ódio enviada ao republicano.
Em 2012 - creiam -ainda há muitos e muitos muros. Dia 31 do mês de maio foi o dia da luta contra o tabaco, e eu pensei: preciso ir à Paris, antes que aqui ninguém mais me compreenda. O direito de fumar ficou em technicolor, mesmo Carry tendo fumado durante quase toda a década de 90.
Eu estava me formando e nada parecia mais impreciso. A escola do direito livre, o Estado Social, a capacidade contributiva e a pirâmide kelseniana não me proviam senão arroubos de indecisão. E os sisos em disparate, duelando com meu espírito conturbado. Mais um cigarro, dois momentos de solidão. O jornalista bêbado, eu seria? Um caso de amor. Tamborilando.
E o livro. Há quatro anos eu escrevia um livro, cinco frases por mês, e o pensamento cambaleante em cinco, seis línguas. Sem conseguir escrever e mentalmente privada de cigarro, fumava um atrás do outro para atropelar ainda mais o raciocínio. A cada tragada, um sentir de veia entupindo, de sangue engrossando, de falta de ar. Esse devaneio simplista de o trago tragando a vida, e eu não me importando. Que longe esse futuro de asfixia, não? Mas as semanas do ano passado passaram tão rapidamente que, de repente, eu fiquei com saudade dos dias mais sem graça.
É que a tragédia do presente é que o nome precisa do aposto 'de grego', senão nem faz sentido. Somos soldados da tragicômica filosofia da esperança de que os anos mais lindos são os que ainda não vivemos e, no entanto, quando eles vêm, só trazem mais pânico e lucidez. E o preço da lucidez, sussurram-me os tempos idos, é a angústia.
Estes sisos terminaram com minha ansiedade pelo porvir e me deixaram nauseada com o aqui e o agora. Trêmula e insone, mais uma vez. A insônia é tanto aquilo que criou Tyler Durden que me levou, às 3 da manhã, a um chat americano de deficientes físicos. Por óbvio, tive de inventar o meu drama: uma jovem de 20 anos sem as duas pernas, perdidas junto com toda a família em um acidente de carro. Larguei o namorado por não me sentir suficiente para ele, ainda que me queira muito, o rapaz. Mas tenho feito grandes avanços, recentemente: entrei para a faculdade de psicologia. Só ando com medo de que meus pacientes tenham mais pena do que confiança em mim, entendem?
E com novos dentes, novas vidas. Mastigo pior. Tinha que arrancá-los, será? Devo comer menos. O mundo é magro e esguio, no primeiro e terceiro mundo. Destoada estou porque vivo em país em desenvolvimento. Dá pena esse lugar comum. As largas ancas e o cabelo loiro. Um pueril esforço para me quedar bonita. O meio. Um tropeço, pernas roxas. Jamais as pernas de uma dama. Mas em outro lugar nem pernas mais eu tenho, de forma que meio que tanto faz. Mas quando eu tinha pernas elas eram bem arroxeadas, sabe? Nenhum problema de sangue, não, é que eu andava feito bêbada. Caía tanto que me chamavam madura, mas era só a imaturidade.
Sim, meus sisos cresciam. Um muro na minha boca que nasceu para não ter muro nenhum. Dizem que, com o tempo, esses dentes serão um resquício, como o apêndice. Nem crescerão mais, dada a sua ausência de função. Hoje, serve para me entortar a língua. Meu pesar físico era uma desculpa para o meu silêncio? Sim, eu justificava minhas longas ausências com este mal. Preste atenção! Mas me doem tanto os sisos... E um rosto agonizante.
É um momento particular pelo qual todos já passaram ou irão passar. A maioria das pessoas que não morrerão antes dos 20. Lembram daquele poeta que gostava de uma lavadeira que morava do outro lado da rua, caiu do cavalo e morreu virgem? Eu sempre me pergutei se ele tinha sisos.
Coincidu com o despontar dos meus terceiros molares. Era uma dor causticante, fazia sangrar e eu cheguei a ficar com pena dos bebês, ainda que não me lembre como é ser bebê e ter todos os dentes rasgando a gengiva de uma vez só.
Achei que, enfim, cresceria e que com meus sisos viriam o tão esperado siso de mente, mas não. A sangria desatada na boca me deixou em estado de folia, a dor de cabeça, a inflamação e até um pouco de febre me fez desejar doses cavalares de uísque ou duas garrafas de vinho por noite, sem falar no rivotril, o paraíso artificial mais procurado nos tempos modernos, o ópio do século XXI.
Mas qual o que, não sou deste século. Nasci no 7 de novembro de 1989, para ver um mundo sem muros. No dia 10 do mesmo mês, do mesmo ano, casava-se em Paris meu amigo Jean, para quem a queda do muro resultou na ideia de que a liberdade caminha para onde quer que encontremos sossego. No seu pai, milionário e cocainômano, não viu senão aprisionamento.
Do álcool, veio uma sensação arcaica de precisar fazer uma cirurgia embriagada por falta de morfina, ou pela insuficiência desta. Pensei em grito: anestésicos, onde estão? Mas só um copo - baixo e sem gelo - de old parr, para suprir a alucinação. Nunca tive muitas dores - de corpo - e as da alma aprendi a estancar com estes mesmos instrumentos: destilados e fermentados, como se queira. Uma cerveja, uma sinuca, um tabuleiro de xadrez para trazer a entropia fervorosamente suplicada.
Café quente eu não podia, mas engolia, pelo bem da minha silhueta, que se avantajava dia a dia em razão do carbicídio que me ocorria vez por mês, antes da menstruação. E eu não estava ficando mais jovem, não, tampouco meu metabolismo. Só o elixir preto combatido pelos mórmons me fazia sentir mais tranquila depois de uma fatia de pudim de leite. No mais, o medo de Mitt Romney também aumentava bastante a ingestão: se aqui embaixo eu nada podia fazer por Obama, só me restava a revolução individual. A cada gole, pensava eu, uma mensagem de ódio enviada ao republicano.
Em 2012 - creiam -ainda há muitos e muitos muros. Dia 31 do mês de maio foi o dia da luta contra o tabaco, e eu pensei: preciso ir à Paris, antes que aqui ninguém mais me compreenda. O direito de fumar ficou em technicolor, mesmo Carry tendo fumado durante quase toda a década de 90.
Eu estava me formando e nada parecia mais impreciso. A escola do direito livre, o Estado Social, a capacidade contributiva e a pirâmide kelseniana não me proviam senão arroubos de indecisão. E os sisos em disparate, duelando com meu espírito conturbado. Mais um cigarro, dois momentos de solidão. O jornalista bêbado, eu seria? Um caso de amor. Tamborilando.
E o livro. Há quatro anos eu escrevia um livro, cinco frases por mês, e o pensamento cambaleante em cinco, seis línguas. Sem conseguir escrever e mentalmente privada de cigarro, fumava um atrás do outro para atropelar ainda mais o raciocínio. A cada tragada, um sentir de veia entupindo, de sangue engrossando, de falta de ar. Esse devaneio simplista de o trago tragando a vida, e eu não me importando. Que longe esse futuro de asfixia, não? Mas as semanas do ano passado passaram tão rapidamente que, de repente, eu fiquei com saudade dos dias mais sem graça.
É que a tragédia do presente é que o nome precisa do aposto 'de grego', senão nem faz sentido. Somos soldados da tragicômica filosofia da esperança de que os anos mais lindos são os que ainda não vivemos e, no entanto, quando eles vêm, só trazem mais pânico e lucidez. E o preço da lucidez, sussurram-me os tempos idos, é a angústia.
Estes sisos terminaram com minha ansiedade pelo porvir e me deixaram nauseada com o aqui e o agora. Trêmula e insone, mais uma vez. A insônia é tanto aquilo que criou Tyler Durden que me levou, às 3 da manhã, a um chat americano de deficientes físicos. Por óbvio, tive de inventar o meu drama: uma jovem de 20 anos sem as duas pernas, perdidas junto com toda a família em um acidente de carro. Larguei o namorado por não me sentir suficiente para ele, ainda que me queira muito, o rapaz. Mas tenho feito grandes avanços, recentemente: entrei para a faculdade de psicologia. Só ando com medo de que meus pacientes tenham mais pena do que confiança em mim, entendem?
E com novos dentes, novas vidas. Mastigo pior. Tinha que arrancá-los, será? Devo comer menos. O mundo é magro e esguio, no primeiro e terceiro mundo. Destoada estou porque vivo em país em desenvolvimento. Dá pena esse lugar comum. As largas ancas e o cabelo loiro. Um pueril esforço para me quedar bonita. O meio. Um tropeço, pernas roxas. Jamais as pernas de uma dama. Mas em outro lugar nem pernas mais eu tenho, de forma que meio que tanto faz. Mas quando eu tinha pernas elas eram bem arroxeadas, sabe? Nenhum problema de sangue, não, é que eu andava feito bêbada. Caía tanto que me chamavam madura, mas era só a imaturidade.
Sim, meus sisos cresciam. Um muro na minha boca que nasceu para não ter muro nenhum. Dizem que, com o tempo, esses dentes serão um resquício, como o apêndice. Nem crescerão mais, dada a sua ausência de função. Hoje, serve para me entortar a língua. Meu pesar físico era uma desculpa para o meu silêncio? Sim, eu justificava minhas longas ausências com este mal. Preste atenção! Mas me doem tanto os sisos... E um rosto agonizante.
É um momento particular pelo qual todos já passaram ou irão passar. A maioria das pessoas que não morrerão antes dos 20. Lembram daquele poeta que gostava de uma lavadeira que morava do outro lado da rua, caiu do cavalo e morreu virgem? Eu sempre me pergutei se ele tinha sisos.
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
O sertão é lugar de revolução
Ontem, fiz minha matrícula na UFCG Campus Sousa, no curso de Direito, de modo que a partir do dia 27 de Fevereiro realizo um sonho de morar em Sousa como universitário, cidadão sousense e ativista político.
É exatamente sobre a matéria do debate político que precisamos refletir. Não há mais tantos espaços para as fofocas dos pré candidatos e as especulações e sondagens das uniões ou desuniões políticas. O alinhamento político precisa ser uma questão de ideologia e não de conveniência, de convergência nas plataformas e não nas benesses esperadas.
Morar em Sousa me dá a oportunidade de contribuir para a união da classe política da nossa cidade em torno da discussão e da luta maciça e integral de todos nós pelos grandes temas que a cidade precisa abordar e dos grandes projetos e sonhos que a cidade precisa realizar, até se tornar uma cidade com as potencialidades naturais devidamente utilizadas para a riqueza e prosperidade do nosso povo e, principalmente, um local mais feliz para os filhos dos que aqui estão.
Tenho a vontade de tornar esse debate ainda mais periférico e levá-lo a todas as comunidades e a setores importantes da sociedade, a fim democratizá-lo cada vez mais. As pessoas querem extrair resultados da política e não tão somente palavras, atenção, sorrisos e eloquência.
No entanto ainda é estranho e dúbio o sentimento de me mudar: estarei fisicamente separado durante boa parte do mês das pessoas que mais amo na minha vida, as minhas irmãs, algo que me deixa angustiado e com o coração apertado por saber que não deixarei mais Lilice na escola e, pasmem, não dividirei com Myriam a constante e árdua missão de pagar as contas. Isso me dá uma saudade precoce, antes que as coisas aconteçam e o tempo dê cumprimento aos fatos. Choro e não tenho vergonha disso.
Eu sei dos sacrifícios das missões e, sinceramente, das renúncias que fazemos pelos sonhos. Lutarei sempre pela união da classe política, a ponto de não me constranger com um aperto de mão a um adversário pelo bem de Sousa. E luto por mais ética, zelo com máquina administrativa e espírito público enraizado nos políticos, por isso também não me sentirei constrangido ao firmemente denunciar o mesmo adversário, para que o bem vença o mal, mesmo que isso seja um tanto clichê.
Termino de rima: gente, o sertão é lugar de revolução.
L.
João Pessoa, 14 de Fevereiro de 2012
É exatamente sobre a matéria do debate político que precisamos refletir. Não há mais tantos espaços para as fofocas dos pré candidatos e as especulações e sondagens das uniões ou desuniões políticas. O alinhamento político precisa ser uma questão de ideologia e não de conveniência, de convergência nas plataformas e não nas benesses esperadas.
Morar em Sousa me dá a oportunidade de contribuir para a união da classe política da nossa cidade em torno da discussão e da luta maciça e integral de todos nós pelos grandes temas que a cidade precisa abordar e dos grandes projetos e sonhos que a cidade precisa realizar, até se tornar uma cidade com as potencialidades naturais devidamente utilizadas para a riqueza e prosperidade do nosso povo e, principalmente, um local mais feliz para os filhos dos que aqui estão.
Tenho a vontade de tornar esse debate ainda mais periférico e levá-lo a todas as comunidades e a setores importantes da sociedade, a fim democratizá-lo cada vez mais. As pessoas querem extrair resultados da política e não tão somente palavras, atenção, sorrisos e eloquência.
No entanto ainda é estranho e dúbio o sentimento de me mudar: estarei fisicamente separado durante boa parte do mês das pessoas que mais amo na minha vida, as minhas irmãs, algo que me deixa angustiado e com o coração apertado por saber que não deixarei mais Lilice na escola e, pasmem, não dividirei com Myriam a constante e árdua missão de pagar as contas. Isso me dá uma saudade precoce, antes que as coisas aconteçam e o tempo dê cumprimento aos fatos. Choro e não tenho vergonha disso.
Eu sei dos sacrifícios das missões e, sinceramente, das renúncias que fazemos pelos sonhos. Lutarei sempre pela união da classe política, a ponto de não me constranger com um aperto de mão a um adversário pelo bem de Sousa. E luto por mais ética, zelo com máquina administrativa e espírito público enraizado nos políticos, por isso também não me sentirei constrangido ao firmemente denunciar o mesmo adversário, para que o bem vença o mal, mesmo que isso seja um tanto clichê.
Termino de rima: gente, o sertão é lugar de revolução.
L.
João Pessoa, 14 de Fevereiro de 2012
domingo, 30 de outubro de 2011
Três
São 3h e a cidade é uma calmaria. Minha cabeça, ao contrário, é um caos só. Melancólico com suas variantes de caos ímpares, mas é, sim, uma desorganização total. Porque é muito estranho saber que uma rede é só uma rede e os tempos já são tão distantes, os bons momentos menos assíduos em sua chegada e o sorriso mais ligeiro em sua partida. Eu nem te conheço o bastante mais, para saber identificar voz, tato ou um mero conselho, contudo eu ainda paro e escrevo depois de meses penando por isso.
São quase 3h, na verdade. Eu escuto uma canção que nada diz, só que as notas são aprazíveis aos meus ouvidos, é um samba altamente gostoso, contudo fica no vácuo a semântica mais profunda, e, pra mim, isso é necessariamente o que interessa, pelo menos, neste tão constante momento, entre idas e vindas de ais e pousos de mais rugas. A peleja caleja, amigos... Dá pra se entender o dito paterno do quanto os suor é significante, é resultado e não mera transpiração orgânica.
Já se avizinha o nascer do sol, e eu insisto em não deitar. O sono pode até bater, mas a porta não se abre, porque já dizia eu mesmo, numa descoberta no carbureto, que dormir é ruim, bom é viver. Por isso, descansarei um pouco e acordarei já cedo. Ora, deve ter tapioca na mesa! A morte tanto é iminente como eminente angústia na vida das pessoas, não pelo fato, mas, como diz um amigo meu, pelo modus operandi, logo viver é estar distante da morte.
Isso foi muito bom: é um ponto de partida interessante para "uma ode ao mictório" e "ainda vou desmascarar o avião".
E vão por mim: cobertura de chocolate só é bom sobre sorvete de morango. O inverso não é verdadeiro.
São mais de 3h.
L.
João Pessoa, 31 de Outubro de 2011
São quase 3h, na verdade. Eu escuto uma canção que nada diz, só que as notas são aprazíveis aos meus ouvidos, é um samba altamente gostoso, contudo fica no vácuo a semântica mais profunda, e, pra mim, isso é necessariamente o que interessa, pelo menos, neste tão constante momento, entre idas e vindas de ais e pousos de mais rugas. A peleja caleja, amigos... Dá pra se entender o dito paterno do quanto os suor é significante, é resultado e não mera transpiração orgânica.
Já se avizinha o nascer do sol, e eu insisto em não deitar. O sono pode até bater, mas a porta não se abre, porque já dizia eu mesmo, numa descoberta no carbureto, que dormir é ruim, bom é viver. Por isso, descansarei um pouco e acordarei já cedo. Ora, deve ter tapioca na mesa! A morte tanto é iminente como eminente angústia na vida das pessoas, não pelo fato, mas, como diz um amigo meu, pelo modus operandi, logo viver é estar distante da morte.
Isso foi muito bom: é um ponto de partida interessante para "uma ode ao mictório" e "ainda vou desmascarar o avião".
E vão por mim: cobertura de chocolate só é bom sobre sorvete de morango. O inverso não é verdadeiro.
São mais de 3h.
L.
João Pessoa, 31 de Outubro de 2011
quarta-feira, 1 de junho de 2011
Tri
TRI
Por José de Paiva Gadelha Neto
Minha relação com o Flamengo sempre foi meio louca mesmo. Me lembro
bem, quando criança, todos da minha idade sonhavam em conhecer a
Disneyworld, se empolgavam ao falar do desejo de brincar na montanha
russa, conhecer o Mickey Mouse, sei lá o que. Eu só queria saber de
conhecer o Maracanã.
Meu pai, um rubro-negro apaixonado, achava isso o máximo e sempre me
apresentava aos amigos dizendo: “Esse é meu filho, Flamenguista, ano
que vem vou levá-lo para conhecer a Gávea e o Maracanã”. As passagens
de avião não eram baratas como hoje, e nós morávamos a quase 3 mil
quilômetros do Rio de Janeiro, além disso, meu pai temia a violência
também.
Com internet, TV por assinatura, Pay-Per-View, as informações são
abundantes e é possível ter notícias em tempo real e assistir todos os
jogos do mais querido, mas quem tem mais de trinta sabe da dificuldade
que era acompanhar notícias e jogos naquela época. Sabia apenas do
horário dos jogos, então, quando faltavam 15 minutos para o início dos
jogos, subia em cima do telhado da casa, acompanhado do meu velho
rádio. Passava aquelas 2 horas com o dedo no tuning do rádio, mexendo
para cima e para baixo, sem sucesso. Existia uma lenda que dizia que as
ondas da Rádio Globo caiam na cidade de Sousa, na Paraíba, onde eu
morava. Bom, chamo de lenda porque no período do jogo, eu escutava a
voz de José Carlos Araújo umas 3 vezes de 4 segundos cada, e claro, era
uma vibração: “Escutei, escutei”. Quando passavam as 2 horas, eu não
sabia patavinas do que tinha se passado no jogo, não tinha outra
alternativa a não ser telefonar para o Flamengo, saber o placar do jogo e
esperar o compacto na Bandeirantes. Também cansei de assistir esses
compactos e vibrar como se estivesse vendo o jogo ao vivo, afinal, não
tinha idéia do placar. Meu pai, claro, achava o máximo.
O tempo passou, fomos morar em João Pessoa em 1995. Agora já existia a
Globosat, e a Sportv já mostrava alguns jogos do Flamengo. Um cara, dono
de um trailerzinho lá no centro da cidade, passou a exibir os jogos e
aquela novidade tomou conta da cidade inteira, o negócio tomou uma
proporção tão grande que na final da Taça Guanabara de 1996, fora
necessário fechar a rua e instalar um telão, para os milhares de rubronegros
que lá foram ver o show de Romário, Sávio e Cia.
Não demorou para os bares da cidade notarem o que mais tarde viraria
um bordão entre os empresários: “jogo do Flamengo lota”. Meu pai
adorou a idéia. Agora poderia ver todos os jogos, acompanhado de um
whiskyzinho, no conforto de um bar e ao meu lado. Só não posso mais
dizer que ele achava o máximo, porque agora ele tinha que conter os
meus excessos oriundos do fanatismo que, por sinal, tinha sido inserido
em mim por ele.
E assim ficou a rotina: Jogo do Flamengo, cachaça e promessa de que no
próximo ano vamos ao Maraca. Meu sonho ainda não tinha se realizado.
Veio a série do tri e na festa do Bi-campeonato, lá na calçadinha de
Manaíra, local das festas do Mengão em João Pessoa, ele me disse: Ano
que vem a gente vai de todo jeito.
É... meu pai não chegou no “ano que vem”. Em novembro de 2000 ele foi
morar com papai do céu. Foi levar a alegria de ser rubro-negro aos céus,
pois a alegria foi o que regeu a vida de Doca Gadelha inteira e eu me
recuso a falar dele com tristeza.
Eu completaria 22 anos em março e só quem já passou por isso sabe o que
são os primeiros meses de uma perda dessa natureza. Foi então que o
Mengão cumpre sua rotina e se classifica para a final do Carioca de 2001 e
ao serem divulgadas as datas dos jogos, surgiu uma promoção, que hoje
pode parecer bobagem, mas na época não era uma coisa comum, ela
dizia: “ Passagem ida e volta, hotel, traslado e ingresso por apenas R$
900,00, parcelado em 6 vezes”. Eu não podia acreditar, tinha chegado a
hora, eu ia conhecer o Maracanã, o sonho que eu tinha desde os 5, 6 anos
de idade estava prestes a se realizar.
Imediatamente liguei para Guto, um amigo de infância tão louco pelo
Flamengo quanto eu, e quando dei notícia da promoção ele respondeu
perguntando: “qual o número da sua conta para eu depositar o
dinheiro?”. Saí correndo para a agência e fui o primeiro a comprar o
pacote. Fui o primeiro de sete pessoas. É, você leu certo, apenas sete
pessoas compraram o pacote, as sete pessoas que não suportaram a
ansiedade e procuraram a agência antes do primeiro jogo.
Os caras ganharam o primeiro jogo, tínhamos que ganhar por dois gols de
diferença e a viagem estava paga. O que fazer? Vou ao Maracanã pela
primeira vez pra perder? O Flamengo vai ser vice depois de dois títulos em
cima do maior rival?
Liguei para Guto e perguntei a ele se ele queria desistir. Confesso que nós
dois não acreditávamos muito, mas como já estava pago, a viagem não
poderia deixar de ocorrer.
Aproveitei que estava dentro do avião, portanto mais perto de Deus e fiz
uma promessa de passar seis meses sem tomar refrigerante se voltasse de
lá tri-campeão. Se estiveres perguntando porque não fiz pra passar esse
tempo sem cerveja, respondo dizendo que a promessa começaria a ser
cumprida logo após o jogo. Como eu iria comemorar? Sem cerveja? Sem
chance.
Chegando no Rio o grande grupo de sete pessoas foi fazer os passeios
tradicionais, Pão-de-açúcar, Corcovado, praias, e claro, a Gávea.
Amigo, hoje tenho uma filha e vejo a reação dela quando chega em um
parque de diversões, corre de um lado para o outro, quer andar em todos
os brinquedos de uma só vez. Eu estava igual. Queria estar na sala de
troféus, no campo de treino, no ginásio, na piscina e na Flaboutique ao
mesmo tempo. Claro que comprei a loja toda, né?
Era sábado, estava anoitecendo e ainda não tinha conseguido tirar
nenhuma foto com nenhum jogador e no local que eu estava aguardando
os jogadores saírem do vestiário só tinha um carrão que eu não tinha idéia
de quem era, foi então que aparecem dois jogadores, o dono do carro era
o melhor do time, o Pet e o carona era o pior, o Maurinho. Fiquei nervoso
na hora, quase derrubo a câmera, mas desnecessariamente, pois os dois
foram bastante solícitos e ao nos despedirmos, disse a ele que tinha vindo
da Paraíba só assistir ao jogo e queria aquele título. Ele respondeu com o
sotaque carregado que lhe é peculiar: “Famo vê”, traduzindo, “Vamos
ver”. Aquela noite eu não dormi, passei a noite virando na cama do hotel e
dizer que estava ansioso é pouco, eu estava beirando a loucura.
Chegou o dia, era época de apagão e o jogo começava ás 15h, chegamos
ao Maracanã ao meio-dia. Que coisa linda, aquela imensidão, que eu
achava que conhecia pela televisão, era mais lindo do que eu poderia
imaginar. Totalmente vazio, eu cheguei a duvidar que todos os espaços
pudessem ser ocupados três horas depois. Nossos ingressos eram para as
cadeiras brancas, que ficava em uma posição onde se via o jogo de frente.
Mas o dia era de perfeição, não podia faltar nada. Olhei de lado e Guto já
estava chorando, então lhe disse: “Vamos para a Raça!!!” O cara topou
sem pensar e lá fomos nós.
A Raça é a maior torcida organizada do Flamengo e ficava reunida atrás do
gol nas cadeiras verdes. Lá estávamos. Medo da violência? Meu amigo, a
emoção que se sente ali só pode ser comparada ao nascimento de um
filho. Você não pensa em outra coisa. É o tipo da coisa que o cara não tem
o direito de morrer antes de sentir.
Começa o jogo e a tensão que sentia naquele instante é algo inexplicável,
me sentia meio que responsável em levar aquela taça para a Paraíba.
Termina o primeiro tempo, no placar 1x1. No intervalo o clima na
magnética era de velório, galera cabisbaixa, triste. O time volta a campo e
com ele volta também o fervor da nação. Comparo aquela reação com a
de uma mãe que está triste por alguma coisa, mas quando vê um filho se
refaz para não deixar o filho preocupado e/ou entristecido.
Edilson marca um gol de cabeça e aí as esperanças ressurgem, posso até
confessar que de forma tímida, apesar de acreditar, já passava dos
quarenta minutos e naquele momento estava naquela de me autoconformar.
Pensava mais ou menos assim: “Vamos ganhar o jogo, não vou
sair daqui com o título, mas já ganhei dois deles, tá bom”. Mas como já
disse, amigo, aquele era dia de perfeição. Edílson sofre uma falta e aquele
cara que eu tinha falado no dia anterior ajeita a bola para bater. Olho para
trás e pergunto a um cara que estava marcando o tempo em quanto
estava e ele responde, 42. Pensei: é agora! Estava quase atrás do gol e o
cara manda o chinelo... O curioso é o que ocorreu em uma fração de
segundo. Do local que eu estava não vi a bola entrar mas escutei a galera
gritar, e imediatamente, vi a bola cair dentro gol. Não sei se reparam, mas
aquela bola não balançou muito a rede.
Meu irmão, foi a maior incidência de loucos por metro quadrado que eu já
vi na minha vida, gente chorando, passando mal, desmaiando. Se você que
esta lendo isso não é Flamengo jamais vai entender esse sentimento,
quem é Flamengo sabe do que eu estou falando. Meu sonho estava
realizado de uma forma que nem eu sonhava, foi tudo perfeito, foi tudo
além. Independente de religião, fica difícil acreditar que meu pai não tem
nada haver com isso.
Hoje é dia 27/05/2011, ou seja, aniversário de dez anos do tri-campeonato
e da minha estréia no Maracanã (fui mais três vezes depois). Também faz
dez anos que meu pai nos deixou e os dois acontecimentos me dão a
sensação de terem acontecido ontem.
Meu pai me prometeu que estaria, DE QUALQUER FORMA, comigo em
2001 no Maracanã, tenho certeza que ele estava. Meu pai morreu sem
saber que resolvi seguir a sua profissão, tenho certeza que ele sabe.
JOSÉ DE PAIVA GADELHA NETO
terça-feira, 12 de abril de 2011
Virei palmeirense!
Quando mamãe ficou grávida de Lafa, meu pai, com medo que eu me
acometesse de um ciúme brabo que é praga forte na família, comprou um filme de
vídeo cassete e colocava todos os dias para eu ver e ouvir. Eu cantarolava
feliz os versinhos de “temos um novo irmãozinho, papai e mamãe dão muito
carinho, nada melhor podia ter acontecido”, e todos acharam que estava tudo
muito resolvido.
Nada feito. Nove meses depois chegou o meu irmãozinho, gordo como uma
bola, mais vesgo impossível, orelhas maiores do que sua cabeça. Não fosse tão
gordo, daria a idéia de serem asas. Se tivessem escolhido o nome na hora, eu
desconfiaria que a razão tinha sido o tamanho das orelhas do menino,
iguaizinhas as de Vovô Lafayette. Achei tão feio, tão feio, que não compreendi
o estardalhaço de toda aquela gente em cima do bebê. Mas mamãe estava feliz
demais, e acharam injustiça dizer que ele era horrendo. Até vovó e Tio Dalton,
habitualmente muito sinceros, viraram juntos várias latinhas de cerveja antes
de proferirem o veredicto: ele não é desse mundo, Aline! Parece Pirrita.
Demorou um tempo até notarem que eu, até então a dona do pedaço, linda e
loira como uma boneca de porcelana no auge do meu um ano e meio de idade,
estava ali estatelada e esquecida, e me convidarem para acariciar a coisa. Já
estava indignada. Afinal, papai nunca me deixava pra trás por nada no mundo.
Dizia constantemente que eu era a mocinha mais bela do planeta, que, às vezes,
virava os olhos de mim com medo de colocar olhado, de tão bonita que me achava.
Ultrajada é que me dispus a chegar perto de Lafa. De mansinho, fui alisando a
cabecinha dele e balbuciando “ó, meu irmãozinho, fofinho...” e, de repente, sem
notar, já tinha arrancado um tufo dos ralos cabelos loiros do neném naquele
falacioso gesto de carinho.
Sabia que estava encrencada. A confusão foi grande, ele berrava alto e
eu corri o mais longe que pude pelos corredores do hospital. Papai me alcançou
e perguntou se eu não lembrava da musiquinha. Eu não sabia dizer, mas achava
mesmo era que nada pior podia ter acontecido. Mal sabia que o pior ainda estava
por vir, quando voltamos pra Sousa (sabe lá porque cargas d’água Lafa foi
nascer em Campina). Muitos tufos de cabelo arrancados e muito choro de Vovó por
causa da minha maldade sem precedentes com aquela criatura ingênua, até eu
perceber que não tinha jeito. Precisava me aliar.
Não importava se eu era bem mais bonita que ele, éramos igualmente
tratados. Claro, eu continuei achando absurdo. Mas resolvi aproveitar o
admirável mundo novo. E, lentamente, descobri que um vesguinho gordo com
orelhas de abano viria a ser o meu melhor amigo, desde a mais tenra idade.
Ele se encantou comigo desde que se entendeu por gente. Logo quando
aprendeu a emitir os primeiros sons, sem saber falar Myriam direito, saía
gritando pela casa: Iáá, Iáá. E até hoje me chama de Iaiá. Acho que ele já sabe
dizer Myriam, mas ainda chama Iaiá.
À tardinha, íamos à praça e eu brigava com quem o chamasse de zarolho,
ainda que eu mesmo chamasse, dentro de casa, só entre nós dois. Ficava em casa
com ele quando ele tinha que usar aquele tampão horrível em um olho só, que eu
nunca entendi pra que servia. Brinquei de Jaspion, Power Rangers e Jiraya, e
nem achava um tédio. Tivemos um vizinho meio psicopata que o obrigava a ficar horas
no sol quente se ele errasse um passe de futebol. Quando eu descobri, o
psicopata, que hoje é nosso amigo, levou uma surra da qual nunca vai se
esquecer.
Meus amigos eram amigos dele e vice-versa. Viemos morar em João Pessoa.
Tínhamos uma gangue enorme que explorava as casas de veraneio abandonadas
durante o inverno em camboinha. Eu, Lu, Leo, Deló, Luquinhas, Bruninha e Lafa.
À noite, mamãe e papai tomavam vinho na beira da praia enquanto nós dois
esperávamos juntos as redes de pescadores aportarem na areia para pegarmos os
peixinhos menores, ou ficávamos correndo com nossas cadelas. A dele, Duda, a
minha, Lara.
Eu gostava de tudo nele. Tudo era divertido, ainda que estivéssemos
apenas os dois. Eu achava graça e me aproveitava de quando ele não queria ir a
um lugar (e eu também não), tirava toda a roupa e corria gritando pela casa: só
vou se for nu! Ele ficava comigo quando eu adoecia, e não contava pra mamãe se
eu fazia uma trela. Foi ele que escondeu meu primeiro beijo, com um primo, na
frente da antiga casa de Lindolfo Pires, encostada numa árvore. Não contou a
ninguém. Mas eu dedurei o primeiro seis que ele tirou em matemática. Foi ele
que jogou trinta partidas de xadrez comigo, quando eu acabei o meu primeiro
namoro e só me distraía com aquilo. Foi ele que me ensinou a usar vírgulas e
melhorar as minhas redações, já que Zarinha agraciava as dele, quase sempre
expostas na parede da recepção do cursinho, com um “Quase Perfeito”. Também foi
ele que me ensinou física do primeiro ano, quando eu já estava no terceiro. Eu
lhe ensinei a cantar o Hino Nacional, porque nós adorávamos cantar juntos e,
quando ele largou a bateria e o rock, pelo violão e a igreja e virou um crente
fanático, o Hino era a única música que podíamos cantar juntos - as outras eram
mundanas. Nem a religião foi um entrave entre nós. Ele tentava me converter, e
eu também tentava convertê-lo. Acabou que ele mesmo deixou aquele fanatismo exacerbado,
depois de ler a Bíblia duas vezes, saliente-se, e até começou a considerar que
eu pudesse ir para o céu, mesmo dizendo “caralho”, de vez em quando.
Eu atualizei-o dos novos palavrões e das novas velhas músicas, e viramos
nós dois fãs de Beatles, Belchior, Bob Dylan, Novos Baianos. Temos um
repertório imenso. Cultuamos a revolução e os comunistas. Hoje, nos decidimos
pelo capitalismo humanista. Mas ainda temos blusas com a fotografia de Che com
os dizeres: ele está morto, faça sua revolução. E ainda acreditamos na
revolução, ao nosso modo. Juntos fizemos esse pacto, de fazer a revolução, meio
que bêbados, num barzinho na Lapa, quando descobrimos juntos o Rio de Janeiro. E
vamos fazer.
Até hoje, só houve um empecilho entre nós. Em 1995, o monstro verde
chegou de súbito para abalar as estruturas de nossa linda amizade. Onze homens,
todos vestidos de verde, em um gramado verde, com o nome Parmalat nas costas
começaram a assombrar minhas quartas-feiras e meus domingos. Lafayette se
apaixonou pela primeira vez. O nome dele era Palmeiras, e eu detestava tanto aquele
time que voltei a arrancar os cabelos do meu irmão de novo. Beliscava-o no meio
do jogo, desligava a televisão, e, como nada adiantou, tomei uma séria decisão:
virei corinthiana.
Ele já não era mais tão menor que eu, então a tapa rolava solta. Também
perdi cabelos, e um abajur de peninhas, que ele depenou, uma a uma, na final da
libertadores de 2000. Eu liguei o som nas alturas com o hino do timão e pulei
serelepe pela sala. Ele trancou-se no meu quarto, usou um batom de mamãe para
escrever um gigantesco “gorda” no meu espelho e, feito isso, depenou o meu
lindo abajurzinho cor de rosa.
Muitas brigas viriam. Papai, achando absurdo o meu comportamento, adotou
o Palmeiras como seu primeiro time (antigamente, como não havia campeonato
brasileiro, era possível ter um time em cada estado, de modo que meu pai era
flamenguista no Rio e Palmeirense em São Paulo, mas, flamenguista, depois que
veio o Brasileirão e similares). Lilice nasceu já palmeirense. Eu insistia no
meu Corinthians, porque, até a chegada do Palmeiras, nada havia me separado
tanto do meu irmão. Não fui tão esperta como quando ele nasceu: em vez de
aliar-me, resolvi bater chapa. Bobinha. Passei domingos em crise nervosa ao
ouvir os gritos de gol, abandonada no meu quarto, sem companhia. Não me veio a
idéia de que poderia estar com ele, comendo uma pipoca e, anos mais tarde,
tomando uma cervejinha, os dois vestidos de verde.
O tempo passou, o Palmeiras continua sendo o grande amor da vida de
Lafa, depois de Keoma, claro, sua namorada, de quem também me fiz aliada,
grande amiga e até incluí-a nos nossos planos revolucionários. Ela topou sem
pestanejar. Hoje somos três. Aliás, quatro. Há o nosso fiel escudeiro Iarley Maia, também um sonhador. E, como bem disse John Lennon, espero que um dia
mais gente se junte a nós. Lafa ainda é o meu melhor amigo, e ninguém no mundo
me completa como ele. Completa, ama, agüenta. Ninguém me diverte como ele. E eu
não admiro ninguém como admiro meu irmãozinho. Não porque ele deixou de ser
vesgo (tá até voltando a ser, inclusive), emagreceu, não tem mais orelhas de
abano e é um gato. Mas porque ele é companheiro, inteligente, engraçado, um
excelente cantor, futuro grande jurista e, sobretudo, porque é muito, muito
solidário. De um altruísmo inigualável. Dizem que puxou ao meu bisavô Tozinho,
que chegou a dar de presente um cartório que tinha. Nem me atrevo a dizer que
sou assim. Por isso, coloco Lafa em um pedestal.
Não foi depois que meus pais morreram que aprendemos a tomar conta um do
outro. Foi sempre assim, já que, quando eu tinha 12 e ele 10, passamos a morar
sozinhos em João Pessoa. Outro dia tive pneumonia. De novo, Lafa não saiu do
meu lado, sabia direitinho a hora de dar o meu antibiótico e o xarope. Tomou
uma xícara de sorvete da minha mão, enquanto eu tentava traçá-la escondido. Aí
eu me dei conta de que um erro, mesmo que tenha sido cometido,
ininterruptamente, por quase quinze anos, ainda pode ser consertado. Que o
Palmeiras nunca poderia nos separar, nem antes, nem hoje. E já que ele saiu na
frente escolhendo seu time do peito, não tenho motivos para pedir para que ele
seja corinthiano.
Faço, agora, o Palmeiras o time do meu coração. Escolho, de
hoje em diante, domingos e quartas-feiras menos solitárias. Escolho um time que
ganhou a libertadores (um tanto oportunista, este argumento, ok). Acho que
nunca fui corinthiana de verdade. Quando o Palmeiras perdia e Lafa ainda era
pequeno, chorava muito. No fundo, bem, bem no fundo mesmo, eu ficava triste
porque ele estava triste.
Através desse texto deixo o comunicado. Virei a casaca. Tive que fazer
uso de muita emoção,é verdade. Porque, mesmo sendo muito altruísta, Lafa nunca
vai perder a oportunidade de, ao saber da novidade, dar uns petelecos na minha
cabeça e dizer divertido: E aí, o verdão é ou não é o melhor? Dá-lhe porco,
dá-lhe porco!
M.
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