sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Mais uma de amor ;))))

Lafa, para mim, você sempre será o meu irmão mais novo, o caçula (porque Lilice demorou um tempo pra chegar, né?). Hoje vejo em você um homem feito, não só ciente das responsabilidades que tem, mas comprometido com elas. Devo lhe dizer que há muito tempo eu não era tão feliz. Ver você realizado e apaixonado pela vida me dá uma satisfação infinita. Às vezes me ocorre um medo egoísta de lhe perder para o mundo porque, em que pese eu lhe ter como 'meu irmãozinho', eu sempre fui muito mais imatura, dengosa, cheia de caprichos infantis. E você, mesmo sabendo disso, nunca fez questão de me encher de mimos, tantas vezes tão desnecessários. Das coisas do além eu sei pouco e duvido muito. Só que, não raro, eu sinto que nossa conexão ultrapassa os limites da relação de sangue que o destino nos impôs. Se eu lhe conhecesse hoje e agora, seria, inexoravelmente, uma fiel discípula e me faria de pronto sua melhor amiga. Você é o melhor amigo que alguém pode ter. Sua disciplina me irrita um pouco e eu chego a lhe achar enjoado, como acredito que você também se impacienta com minha imprevisibilidade e toda a labilidade emocional. No fim das contas, eu desejo imensamente a sua resolutividade e decisão, porque minhas certezas se esvaem em uma dose de uísque, enquanto você resta calmo, sereno e tranquilo, como naquela música, uma das primeiras que você aprendeu a tocar no violão. Minhas melhores lembranças são com você. As piores também, mas se você não existisse, elas ficariam menos leves. Como você faz graça eu nunca me canso. Como você continua crescendo, eu não me espanto. Como você ama as pessoas, também não me assusta - essa sua empatia natural com todos os seres humanos só desperta em mim a vontade de ser uma pessoa melhor. Lafa, você é uma pessoa inspiradora. Desde menino tão comportado, estudioso, meticuloso que só parece meu irmão ao som de Beatles, Belchior e Los Hermanos. Ou quando para e olha trocado, sem me deixar saber o que você vê, mas discute comigo tudo o que está além da nossa compreensão. Mas é incrível como quase sempre nos damos por satisfeitos com a ausência de resposta e aí, nesse caso, o conformismo não parece uma coisa tão ruim assim. Nós dois sabemos como esses últimos anos foram difíceis e cruéis. Amadurecer no carbureto e virar adulto da noite pro dia foi bem complicado, mas isso nunca nos tirou a alegria de viver, nem de acreditar que dias melhores viriam. E, de fato, vieram. Ainda me assusta a possibilidade de a tristeza retornar, e esse medo, por vezes, é pior que a própria tristeza. Você bem entende como é ter a sensação de que, a qualquer momento, um evento inesperado nos tome novamente de assalto e encha nossos corações de pesar. Mas, como papai dizia, a vida é sempre lançada à queima roupa e a lição mais preciosa disso tudo é que os leões que temos que engolir a cada dia parecem menos ferozes. Você é meu companheiro de batalhas e até hoje não conheci melhor guerreiro. Tão corajoso, Lafa, tão valente você é. Não cabe em mim o orgulho que sinto dos seus tantos predicados. Só posso repetir Che, bater no peito dizendo que endurecemos e não perdemos nunca a ternura. Que o bom do nosso cotidiano são as brincadeiras que não deixamos de fazer, as piadas, não raro as mesmas (ou do mesmo tom de humor- o nosso!), mas sempre tão engraçada, a leveza. Sinto sua falta todos os dias, mais por isso do que por você ser meu grande herói. Amanhã você começa, oficialmente, a dar contornos concretos àquele plano que fizemos lá no Leblon. Sei que você vai fazer tudo certo, que seus ideais manter-se-ão incólumes e que a revolução virá de passo em passo. Queria muito que papai e mamãe estivessem aqui. Fico imaginando o que ele estaria lhe dizendo, como mamãe estaria contente escolhendo seu paletó. Como eles ririam, embriagados de satisfação, toda vez que lembrassem dos seus 2833 votos. Como eles repetiriam, incessantemente, que não vale o poder apenas pelo poder, que quem não vive pra servir, não serve pra viver. Mas você guardou bem, sei que sua memória não falha. Só para garantir, repita na sua mente mais algumas vezes. Que neste ano nós consigamos ter disciplina para cumprir a dieta dos pontos, que seu violão não descanse nunca, assim como nossa vontade de ajudar a quem mais precisa. Que a sensibilidade não falte nunca, mas que a razão também seja amiga (sobretudo minha), que possamos dar mais atenção aos livros e amigos, e não esquecer nunca de dizer o quanto nos amamos e o quanto somos importantes uns para os outros. Eu amo muito você, Lafa. Um beijo imenso e o abraço mais apertado da sua Naná.


M. 

terça-feira, 5 de junho de 2012

Sisos

Sisos.


Coincidu com o despontar dos meus terceiros molares. Era uma dor causticante, fazia sangrar e eu cheguei a ficar com pena dos bebês, ainda que não me lembre como é ser bebê e ter todos os dentes rasgando a gengiva de uma vez só.

Achei que, enfim, cresceria e que com meus sisos viriam o tão esperado siso de mente, mas não. A sangria desatada na boca me deixou em estado de folia, a dor de cabeça, a inflamação e até um pouco de febre me fez desejar doses cavalares de uísque ou duas garrafas de vinho por noite, sem falar no rivotril, o paraíso artificial mais procurado nos tempos modernos, o ópio do século XXI.

Mas qual o que, não sou deste século. Nasci no 7 de novembro de 1989, para ver um mundo sem muros. No dia 10 do mesmo mês, do mesmo ano, casava-se em Paris meu amigo Jean, para quem a queda do muro resultou na ideia de que a liberdade caminha para onde quer que encontremos sossego. No seu pai, milionário e cocainômano, não viu senão aprisionamento.

Do álcool, veio uma sensação arcaica de precisar fazer uma cirurgia embriagada por falta de morfina, ou pela insuficiência desta. Pensei em grito: anestésicos, onde estão? Mas só um copo - baixo e sem gelo - de old parr, para suprir a alucinação. Nunca tive muitas dores - de corpo - e as da alma aprendi a estancar com estes mesmos instrumentos: destilados e fermentados, como se queira. Uma cerveja, uma sinuca, um tabuleiro de xadrez para trazer a entropia fervorosamente suplicada.

Café quente eu não podia, mas engolia, pelo bem da minha silhueta, que se avantajava dia a dia em razão do carbicídio que me ocorria vez por mês, antes da menstruação. E eu não estava ficando mais jovem, não, tampouco meu metabolismo. Só o elixir preto combatido pelos mórmons me fazia sentir mais tranquila depois de uma fatia de pudim de leite. No mais, o medo de Mitt Romney também aumentava bastante a ingestão: se aqui embaixo eu nada podia fazer por Obama, só me restava a revolução individual. A cada gole, pensava eu, uma mensagem de ódio enviada ao republicano.

Em 2012 - creiam -ainda há muitos e muitos muros. Dia 31 do mês de maio foi o dia da luta contra o tabaco, e eu pensei: preciso ir à Paris, antes que aqui ninguém mais me compreenda. O direito de fumar ficou em technicolor, mesmo Carry tendo fumado durante quase toda a década de 90.

Eu estava me formando e nada parecia mais impreciso. A escola do direito livre, o Estado Social, a capacidade contributiva e a pirâmide kelseniana não me proviam senão arroubos de indecisão. E os sisos em disparate, duelando com meu espírito conturbado. Mais um cigarro, dois momentos de solidão. O jornalista bêbado, eu seria? Um caso de amor. Tamborilando.

E o livro. Há quatro anos eu escrevia um livro, cinco frases por mês, e o pensamento cambaleante em cinco, seis línguas. Sem conseguir escrever e mentalmente privada de cigarro, fumava um atrás do outro para atropelar ainda mais o raciocínio. A cada tragada, um sentir de veia entupindo, de sangue engrossando, de falta de ar. Esse devaneio simplista de o trago tragando a vida, e eu não me importando. Que longe esse futuro de asfixia, não? Mas as semanas do ano passado passaram tão rapidamente que, de repente, eu fiquei com saudade dos dias mais sem graça.

É que a tragédia do presente é que o nome precisa do aposto 'de grego', senão nem faz sentido.  Somos soldados da tragicômica filosofia da esperança de que os anos mais lindos são os que ainda não vivemos e, no entanto, quando eles vêm, só trazem mais pânico e lucidez. E o preço da lucidez, sussurram-me os tempos idos, é a angústia.

Estes sisos terminaram com minha ansiedade pelo porvir e me deixaram nauseada com o aqui e o agora. Trêmula e insone, mais uma vez. A insônia é tanto aquilo que criou Tyler Durden que me levou, às 3 da manhã, a um chat americano de deficientes físicos. Por óbvio, tive de inventar o meu drama: uma jovem de 20 anos sem as duas pernas, perdidas junto com toda a família em um acidente de carro. Larguei o namorado por não me sentir suficiente para ele, ainda que me queira muito, o rapaz. Mas tenho feito grandes avanços, recentemente: entrei para a faculdade de psicologia. Só ando com medo de que meus pacientes tenham mais pena do que confiança em mim, entendem?

E com novos dentes, novas vidas. Mastigo pior. Tinha que arrancá-los, será? Devo comer menos. O mundo é magro e esguio, no primeiro e terceiro mundo. Destoada estou porque vivo em país em desenvolvimento. Dá pena esse lugar comum. As largas ancas e o cabelo loiro. Um pueril esforço para me quedar bonita. O meio. Um tropeço, pernas roxas. Jamais as pernas de uma dama. Mas em outro lugar nem pernas mais eu tenho, de forma que meio que tanto faz. Mas quando eu tinha pernas elas eram bem arroxeadas, sabe? Nenhum problema de sangue, não, é que eu andava feito bêbada. Caía tanto que me chamavam madura, mas era só a imaturidade.

Sim, meus sisos cresciam. Um muro na minha boca que nasceu para não ter muro nenhum. Dizem que, com o tempo, esses dentes serão um resquício, como o apêndice. Nem crescerão mais, dada a sua ausência de função. Hoje, serve para me entortar a língua. Meu pesar físico era uma desculpa para o meu silêncio? Sim, eu justificava minhas longas ausências com este mal. Preste atenção! Mas me doem tanto os sisos... E um rosto agonizante.

 É um momento particular pelo qual todos já passaram ou irão passar. A maioria das pessoas que não morrerão antes dos 20. Lembram daquele poeta que gostava de uma lavadeira que morava do outro lado da rua, caiu do cavalo e morreu virgem? Eu sempre me pergutei se ele tinha sisos.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

O sertão é lugar de revolução

Ontem, fiz minha matrícula na UFCG Campus Sousa, no curso de Direito, de modo que a partir do dia 27 de Fevereiro realizo um sonho de morar em Sousa como universitário, cidadão sousense e ativista político. 
É exatamente sobre a matéria do debate político que precisamos refletir. Não há mais tantos espaços para as fofocas dos pré candidatos e as especulações e sondagens das uniões ou desuniões políticas. O alinhamento político precisa ser uma questão de ideologia e não de conveniência, de convergência nas plataformas e não nas benesses esperadas.
Morar em Sousa me dá a oportunidade de contribuir para a união da classe política da nossa cidade em torno da discussão e da luta maciça e integral de todos nós pelos grandes temas que a cidade precisa abordar e dos grandes projetos e sonhos que a cidade precisa realizar, até se tornar uma cidade com as potencialidades naturais devidamente utilizadas para a riqueza e prosperidade do nosso povo e, principalmente, um local mais feliz para os filhos dos que aqui estão.
Tenho a vontade de tornar esse debate ainda mais periférico e levá-lo a todas as comunidades e a setores importantes da sociedade, a fim democratizá-lo cada vez mais. As pessoas querem extrair resultados da política e não tão somente palavras, atenção, sorrisos e eloquência.
No entanto ainda é estranho e dúbio o sentimento de me mudar: estarei fisicamente separado durante boa parte do mês das pessoas que mais amo na minha vida, as minhas irmãs, algo que me deixa angustiado e com o coração apertado por saber que não deixarei mais Lilice na escola e, pasmem, não dividirei com Myriam a constante e árdua missão de pagar as contas. Isso me dá uma saudade precoce, antes que as coisas aconteçam e o tempo dê cumprimento aos fatos. Choro e não tenho vergonha disso.
Eu sei dos sacrifícios das missões e, sinceramente, das renúncias que fazemos pelos sonhos. Lutarei sempre pela união da classe política, a ponto de não me constranger com um aperto de mão a um adversário pelo bem de Sousa. E luto por mais ética, zelo com máquina administrativa e espírito público enraizado nos políticos, por isso também não me sentirei constrangido ao firmemente denunciar o mesmo adversário, para que o bem vença o mal, mesmo que isso seja um tanto clichê.
Termino de rima: gente, o sertão é lugar de revolução.



L.
João Pessoa, 14 de Fevereiro de 2012



domingo, 30 de outubro de 2011

Três

São 3h e a cidade é uma calmaria. Minha cabeça, ao contrário, é um caos só. Melancólico com suas variantes de caos ímpares, mas é, sim, uma desorganização total. Porque é muito estranho saber que uma rede é só uma rede e os tempos já são tão distantes, os bons momentos menos assíduos em sua chegada e o sorriso mais ligeiro em sua partida. Eu nem te conheço o bastante mais, para saber identificar voz, tato ou um mero conselho, contudo eu ainda paro e escrevo depois de meses penando por isso.
São quase 3h, na verdade. Eu escuto uma canção que nada diz, só que as notas são aprazíveis aos meus ouvidos, é um samba altamente gostoso, contudo fica no vácuo a semântica mais profunda, e, pra mim, isso é necessariamente o que interessa, pelo menos, neste tão constante momento, entre idas e vindas de ais e pousos de mais rugas. A peleja caleja, amigos... Dá pra se entender o dito paterno do quanto os suor é significante, é resultado e não mera transpiração orgânica.
Já se avizinha o nascer do sol, e eu insisto em não deitar. O sono pode até bater, mas a porta não se abre, porque já dizia eu mesmo, numa descoberta no carbureto, que dormir é ruim, bom é viver. Por isso, descansarei um pouco e acordarei já cedo. Ora, deve ter tapioca na mesa! A morte tanto é iminente como eminente angústia na vida das pessoas, não pelo fato, mas, como diz um amigo meu, pelo modus operandi, logo viver é estar distante da morte.
Isso foi muito bom: é um ponto de partida interessante para "uma ode ao mictório" e "ainda vou desmascarar o avião".
E vão por mim: cobertura de chocolate só é bom sobre sorvete de morango. O inverso não é verdadeiro.
São mais de 3h.


L.
João Pessoa, 31 de Outubro de 2011

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Tri


TRI 

Por José de Paiva Gadelha Neto 

Minha relação com o Flamengo sempre foi meio louca mesmo. Me lembro
bem, quando criança, todos da minha idade sonhavam em conhecer a
Disneyworld, se empolgavam ao falar do desejo de brincar na montanha
russa, conhecer o Mickey Mouse, sei lá o que. Eu só queria saber de
conhecer o Maracanã.

Meu pai, um rubro-negro apaixonado, achava isso o máximo e sempre me
apresentava aos amigos dizendo: “Esse é meu filho, Flamenguista, ano
que vem vou levá-lo para conhecer a Gávea e o Maracanã”. As passagens
de avião não eram baratas como hoje, e nós morávamos a quase 3 mil
quilômetros do Rio de Janeiro, além disso, meu pai temia a violência
também.

Com internet, TV por assinatura, Pay-Per-View, as informações são
abundantes e é possível ter notícias em tempo real e assistir todos os
jogos do mais querido, mas quem tem mais de trinta sabe da dificuldade
que era acompanhar notícias e jogos naquela época. Sabia apenas do
horário dos jogos, então, quando faltavam 15 minutos para o início dos
jogos, subia em cima do telhado da casa, acompanhado do meu velho
rádio. Passava aquelas 2 horas com o dedo no tuning do rádio, mexendo
para cima e para baixo, sem sucesso. Existia uma lenda que dizia que as
ondas da Rádio Globo caiam na cidade de Sousa, na Paraíba, onde eu
morava. Bom, chamo de lenda porque no período do jogo, eu escutava a
voz de José Carlos Araújo umas 3 vezes de 4 segundos cada, e claro, era
uma vibração: “Escutei, escutei”. Quando passavam as 2 horas, eu não
sabia patavinas do que tinha se passado no jogo, não tinha outra
alternativa a não ser telefonar para o Flamengo, saber o placar do jogo e
esperar o compacto na Bandeirantes. Também cansei de assistir esses
compactos e vibrar como se estivesse vendo o jogo ao vivo, afinal, não
tinha idéia do placar. Meu pai, claro, achava o máximo.

O tempo passou, fomos morar em João Pessoa em 1995. Agora já existia a
Globosat, e a Sportv já mostrava alguns jogos do Flamengo. Um cara, dono
de um trailerzinho lá no centro da cidade, passou a exibir os jogos e
aquela novidade tomou conta da cidade inteira, o negócio tomou uma
proporção tão grande que na final da Taça Guanabara de 1996, fora
necessário fechar a rua e instalar um telão, para os milhares de rubronegros
que lá foram ver o show de Romário, Sávio e Cia.

Não demorou para os bares da cidade notarem o que mais tarde viraria
um bordão entre os empresários: “jogo do Flamengo lota”. Meu pai
adorou a idéia. Agora poderia ver todos os jogos, acompanhado de um
whiskyzinho, no conforto de um bar e ao meu lado. Só não posso mais
dizer que ele achava o máximo, porque agora ele tinha que conter os
meus excessos oriundos do fanatismo que, por sinal, tinha sido inserido
em mim por ele.

E assim ficou a rotina: Jogo do Flamengo, cachaça e promessa de que no
próximo ano vamos ao Maraca. Meu sonho ainda não tinha se realizado.
Veio a série do tri e na festa do Bi-campeonato, lá na calçadinha de
Manaíra, local das festas do Mengão em João Pessoa, ele me disse: Ano
que vem a gente vai de todo jeito.

É... meu pai não chegou no “ano que vem”. Em novembro de 2000 ele foi
morar com papai do céu. Foi levar a alegria de ser rubro-negro aos céus,
pois a alegria foi o que regeu a vida de Doca Gadelha inteira e eu me
recuso a falar dele com tristeza.

Eu completaria 22 anos em março e só quem já passou por isso sabe o que
são os primeiros meses de uma perda dessa natureza. Foi então que o
Mengão cumpre sua rotina e se classifica para a final do Carioca de 2001 e
ao serem divulgadas as datas dos jogos, surgiu uma promoção, que hoje
pode parecer bobagem, mas na época não era uma coisa comum, ela
dizia: “ Passagem ida e volta, hotel, traslado e ingresso por apenas R$
900,00, parcelado em 6 vezes”. Eu não podia acreditar, tinha chegado a
hora, eu ia conhecer o Maracanã, o sonho que eu tinha desde os 5, 6 anos
de idade estava prestes a se realizar.

Imediatamente liguei para Guto, um amigo de infância tão louco pelo
Flamengo quanto eu, e quando dei notícia da promoção ele respondeu
perguntando: “qual o número da sua conta para eu depositar o
dinheiro?”. Saí correndo para a agência e fui o primeiro a comprar o
pacote. Fui o primeiro de sete pessoas. É, você leu certo, apenas sete
pessoas compraram o pacote, as sete pessoas que não suportaram a
ansiedade e procuraram a agência antes do primeiro jogo.

Os caras ganharam o primeiro jogo, tínhamos que ganhar por dois gols de
diferença e a viagem estava paga. O que fazer? Vou ao Maracanã pela
primeira vez pra perder? O Flamengo vai ser vice depois de dois títulos em
cima do maior rival?

Liguei para Guto e perguntei a ele se ele queria desistir. Confesso que nós
dois não acreditávamos muito, mas como já estava pago, a viagem não
poderia deixar de ocorrer.

Aproveitei que estava dentro do avião, portanto mais perto de Deus e fiz
uma promessa de passar seis meses sem tomar refrigerante se voltasse de
lá tri-campeão. Se estiveres perguntando porque não fiz pra passar esse
tempo sem cerveja, respondo dizendo que a promessa começaria a ser
cumprida logo após o jogo. Como eu iria comemorar? Sem cerveja? Sem
chance.

Chegando no Rio o grande grupo de sete pessoas foi fazer os passeios
tradicionais, Pão-de-açúcar, Corcovado, praias, e claro, a Gávea.
Amigo, hoje tenho uma filha e vejo a reação dela quando chega em um
parque de diversões, corre de um lado para o outro, quer andar em todos
os brinquedos de uma só vez. Eu estava igual. Queria estar na sala de
troféus, no campo de treino, no ginásio, na piscina e na Flaboutique ao
mesmo tempo. Claro que comprei a loja toda, né?

Era sábado, estava anoitecendo e ainda não tinha conseguido tirar
nenhuma foto com nenhum jogador e no local que eu estava aguardando
os jogadores saírem do vestiário só tinha um carrão que eu não tinha idéia
de quem era, foi então que aparecem dois jogadores, o dono do carro era
o melhor do time, o Pet e o carona era o pior, o Maurinho. Fiquei nervoso
na hora, quase derrubo a câmera, mas desnecessariamente, pois os dois
foram bastante solícitos e ao nos despedirmos, disse a ele que tinha vindo
da Paraíba só assistir ao jogo e queria aquele título. Ele respondeu com o
sotaque carregado que lhe é peculiar: “Famo vê”, traduzindo, “Vamos
ver”. Aquela noite eu não dormi, passei a noite virando na cama do hotel e
dizer que estava ansioso é pouco, eu estava beirando a loucura.

Chegou o dia, era época de apagão e o jogo começava ás 15h, chegamos
ao Maracanã ao meio-dia. Que coisa linda, aquela imensidão, que eu
achava que conhecia pela televisão, era mais lindo do que eu poderia
imaginar. Totalmente vazio, eu cheguei a duvidar que todos os espaços
pudessem ser ocupados três horas depois. Nossos ingressos eram para as
cadeiras brancas, que ficava em uma posição onde se via o jogo de frente.
Mas o dia era de perfeição, não podia faltar nada. Olhei de lado e Guto já
estava chorando, então lhe disse: “Vamos para a Raça!!!” O cara topou
sem pensar e lá fomos nós.

A Raça é a maior torcida organizada do Flamengo e ficava reunida atrás do
gol nas cadeiras verdes. Lá estávamos. Medo da violência? Meu amigo, a
emoção que se sente ali só pode ser comparada ao nascimento de um
filho. Você não pensa em outra coisa. É o tipo da coisa que o cara não tem
o direito de morrer antes de sentir.

Começa o jogo e a tensão que sentia naquele instante é algo inexplicável,
me sentia meio que responsável em levar aquela taça para a Paraíba.
Termina o primeiro tempo, no placar 1x1. No intervalo o clima na
magnética era de velório, galera cabisbaixa, triste. O time volta a campo e
com ele volta também o fervor da nação. Comparo aquela reação com a
de uma mãe que está triste por alguma coisa, mas quando vê um filho se
refaz para não deixar o filho preocupado e/ou entristecido.
Edilson marca um gol de cabeça e aí as esperanças ressurgem, posso até
confessar que de forma tímida, apesar de acreditar, já passava dos
quarenta minutos e naquele momento estava naquela de me autoconformar.

Pensava mais ou menos assim: “Vamos ganhar o jogo, não vou
sair daqui com o título, mas já ganhei dois deles, tá bom”. Mas como já
disse, amigo, aquele era dia de perfeição. Edílson sofre uma falta e aquele
cara que eu tinha falado no dia anterior ajeita a bola para bater. Olho para
trás e pergunto a um cara que estava marcando o tempo em quanto
estava e ele responde, 42. Pensei: é agora! Estava quase atrás do gol e o
cara manda o chinelo... O curioso é o que ocorreu em uma fração de
segundo. Do local que eu estava não vi a bola entrar mas escutei a galera
gritar, e imediatamente, vi a bola cair dentro gol. Não sei se reparam, mas
aquela bola não balançou muito a rede.

Meu irmão, foi a maior incidência de loucos por metro quadrado que eu já
vi na minha vida, gente chorando, passando mal, desmaiando. Se você que
esta lendo isso não é Flamengo jamais vai entender esse sentimento,
quem é Flamengo sabe do que eu estou falando. Meu sonho estava
realizado de uma forma que nem eu sonhava, foi tudo perfeito, foi tudo
além. Independente de religião, fica difícil acreditar que meu pai não tem
nada haver com isso.

Hoje é dia 27/05/2011, ou seja, aniversário de dez anos do tri-campeonato
e da minha estréia no Maracanã (fui mais três vezes depois). Também faz
dez anos que meu pai nos deixou e os dois acontecimentos me dão a
sensação de terem acontecido ontem.

Meu pai me prometeu que estaria, DE QUALQUER FORMA, comigo em
2001 no Maracanã, tenho certeza que ele estava. Meu pai morreu sem
saber que resolvi seguir a sua profissão, tenho certeza que ele sabe.

JOSÉ DE PAIVA GADELHA NETO